UTOPIA REALIZÁVEL

A Alemanha e Itália perderam as suas indústrias de calçados, mas não perderam as suas características de países na vanguarda da tecnologia e de inventividade. Quando o resto do mundo já aceitou passivamente a transição do centro de gravidade da indústria de calçados do Ocidente para o Oriente, eis que surgem novidades surpreendentes que devem interessar a todos que se preocupam com o futuro da indústria de calçados brasileira. – Pelo andar da carruagem, será que alguém se preocupa com algo, além da próxima Couromoda?

As estatísticas e os  números sobre a evolução do mercado para o calçado nacional estão mais que preocupantes. Se estas tendências prevalecerão por mais alguns anos, seguiremos o mesmo caminho das indústrias de calçado européias. Além dos alemães, os italianos, portugueses e espanhóis que o digam.

Mas simultaneamente de várias fontes surgem notícias que podem mudar radicalmente o cenário das indústrias de calçados em países altamente industrializados, onde não se pode contar com mão-de-obra abundante e barata. Pelo contrário, o que indica esta nova tendência, a mão-de-obra será altamente especializada e em número incrivelmente reduzido.

Afinal, de que se trata? Há poucas semanas atrás, no artigo Novas Tecnologias (leia aqui), descrevi um novo autômato para fazer independentemente da mão humana, duas importantes operações. A máquina criada pela Leibrock Maschinenfabrik da Alemanha é um importante passo para automação da produção. E agora vem, praticamente, ao mesmo tempo, de duas fontes diferentes a notícia sobre a completa automação da montagem e acabamento do calçado sem, praticamente, a interferência de mão humana.

Do lado dos produtores de calçados, dois nomes mundiais já estão praticando, pelo menos em boa parte, a nova tecnologia. Nos Estados Unidos a New Balance, que produz, com a robotização cada vez maior o calçado, dependendo da sofisticação, entre 12 a 24 minutos o par. Na Dinamarca a Ecco está mostrando o caminho para um número cada vez maior de indústrias no sentido da automação e robotização.

Duas das hoje maiores corporações no setor de máquinas para calçados, Desma e Main Group Technologies, estão anunciando o desenvolvimento de robôs, que podem ser encarregados de produzir o calçado completo com a mínima contribuição física dos operários. Evidentemente, são os primeiros passos, mas merecem toda nossa atenção, porque estes primeiros passos estão sendo dados na longa estrada que permitirá o retorno da produção de calçados para países, onde está seriamente ameaçada, como o é o caso do Brasil.

Não estamos longe de entrar no grupo dos privilegiados. As mudanças profundas na comercialização do calçado e questão de tempo cada vez mais curto entre lançamentos e entregas aos clientes estão forçando, por si mesmo, esta reviravolta na concepção e na  gestão das empresas. Mas, observem o que já ocorre: no corte já podemos contar com o último desenvolvimento da Teseo, máquina de corte a laser, que elimina em grande parte as deficiências e limitações das máquinas atuais.

No pesponto, as máquinas do tipo Orisol ou Garudan, de costura automática, são capazes de resolver todas as costuras bi-dimensionais. É questão de tempo de resolver os problemas da costura tri-dimensional do fechamento do cabedal: E com robotização da Desma ou Main Group, calçado masculino e sapatilha ou Oxford feminino, pode ser produzido imediatamente. Na Alemanha temos prova desta viabilidade. A firma Heinrich Klumpen Sohne em Nettetal produz calçado de segurança de altíssima qualidade com somente 80 funcionários!

Fiz algumas simulações e acredito, que seja possível produzir 800 pares de calçado de couro para homem por dia, com sola pré-fabricada ou injetada com, no máximo 20 funcionários na produção robotizada, desde o corte até o acabamento. Naturalmente, a parte da modelagem e escalação deve ser feita nos moldes de engenharia de precisão.

A economia da folha de pagamento poderia ser transferida para o tratamento do calçado que poderia ficar 15 dias secando na forma, como até hoje fazem os ingleses com as suas marcas famosas e que, deste modo, garantem que o calçado não irá deformar nem com anos de uso. – Sem falar no fato que, uma vez demonstrado e consolidado o prestigio da marca o valor do calçado pode ser medido em centenas de dólares

A economia do tempo, a economia do espaço, flexibilidade no atendimento dos ditames da moda, motivação do reduzido quadro de funcionários altamente treinados, passagem da mecânica quase primitiva para mecatrônica, quem é que não vai parar de pensar?
 
Seria bom, sair da zona do conforto e parar de perguntar: alguém já fez? Como de costume. Seria bom parar de pensar na próxima Couromoda ou Francal e pensar para alguns anos adiante. Porque podem acreditar que o mundo não vai acabar em 21 de Dezembro deste ano como prediz o calendário maia.  Mas para muita gente do ramo de calçados, o mundo vai acabar, sim, embora ainda vá demorar uns anos.

Zdenek Pracuch
10/12/12