AINDA HÁ TEMPO

Foi me dado viver uma experiência muito gratificante dando me mais otimismo na avaliação do futuro da indústria calçadista brasileira. Fui chamado por um empresário jovem que, de vendedor de calçados virou, nos últimos cinco anos, industrial.

O jovem sentia que, alguma coisa faltava para a gestão da sua empresa, mas como não conseguia identificar o que era, já tendo esgotado os recursos disponíveis, como cursos no SENAI para os funcionários graduados, conselhos dos fornecedores etc. me chamou para analisar o que poderia melhorar.

Passei dois dias na empresa dele e no final preparei um relatório de oito páginas, recheadas de sugestões, do que fazer para ter uma empresa moderna, viável no terceiro milênio e altamente competitiva sob todos os pontos de vista. Traçamos um programa e cronograma de trabalho e – mãos à obra!

A empresa não é de Franca, mas um dia antes de viajar para atender o convite, li uma manchete num jornal de Franca, que dizia: “Invasão asiática apavora calçadistas”. Pensei comigo – grande novidade! Eu, pelo menos, escrevo e falo sobre o assunto há mais de cinco anos. É agora que ficaremos apavorados? Demorou tanto para entender a defasagem e acomodação? Demorou tanto para entender a nova dinâmica da indústria de calçados global?

Nunca é tarde para reagir. Só que a reação está sendo dirigida para um alvo errado. Esperar, que o governo va tomar providências e esperar que estas providências irão resolver uma situação que é uma questão de vida ou morte para este ramo industrial é ser muito, mas muito ingênuo mesmo! Mais ainda, esperar alguma coisa deste governo, que quer frear a entrada devastadora de dólares com aumento de 2 % do IOF, beira o ridículo.

Os calçadistas devem reagir, sim, mas por conta própria, cada um na sua empresa. Se atualizar, modernizar, procurar economias, maior eficiência, melhores métodos de gestão, de criação, de vendas – quanta coisa está para ser feita!

É por isso que disse acima que me foi dada viver uma experiência gratificante, de ter sido chamado para ajudar, por um empresário jovem, ciente das suas deficiências e ansioso para superá-las. Este é o caminho. Se o governo quiser e puder ajudar, muito obrigado. Mas a iniciativa e todo o volume de ação têm que partir de dentro da empresa.

Numa das últimas colunas citei exemplo de três firmas calçadistas (Exemplos que fazem pensar - leia aqui), que estão sobrevivendo em países, onde o resto das indústrias de calçados já morreu e foi enterrado sem grande comoção. O exemplo citado e a ser seguido é da New Balance, marca mundial e que consegue manter cinco unidades produtoras nos Estados Unidos. O marco impressionante, quando comparado com a realidade brasileira, é o tempo necessário para produzir um par de calçado – vinte e quatro minutos.

O tempo impressiona, mas perde um pouco de efeito, quando posso informar, que em Nova Serrana (sim, em Nova Serrana!) temos hoje uma indústria que produz calçado feminino e tênis skate em 50 minutos. Desde o começo do pesponto até a caixa do despacho. Repito mais uma vez: em Nova Serrana, cidade onde a indústria de calçados começou há menos de trinta anos.

Se os chineses se orgulham de fazer calçado em três horas, Nova Serrana, na calada é três vezes mais eficiente que a China. Não é motivo de admiração? Por que, então, não poderia também ser motivo de imitação? Já levei muita gente comigo, de várias partes do Brasil, inclusive francanos, para conhecer esta indústria e pelo menos levar como lembrança uma inspiração para procura de novos caminhos.

Sabem, qual foi a resposta padrão que ouvia e ouço? A última visita foi na semana passada. “Em Franca não dá para fazer isso!” Muito bem, dá nos Estados Unidos, dá em Nova Serrana, dá na China – em ordem dos tempos gastos – mas em Franca não dá! Em Franca, quem conseguir completar a tarefa em quatro dias(!) é considerado super-organizado. O normal é o calçado ficar rolando de oito a dez dias em produção.

Leva a entender que, mudar as estruturas das fábricas, mudar os métodos da gestão, mudar principalmente a mentalidade, simplesmente, em Franca não dá. É mais cômodo, menos trabalhoso, esperar que o governo baixe um decreto aumentando as alíquotas de importação do calçado oriental. Não vai ser fácil, tratando se de chineses. Dá para aferir pelos resultados pífios conseguidos na visita presidencial. Promessa, sim promessa , da compra de 40 aviões da Embraer, para não fazer muita concorrência ao avião que os chineses já diligentemente copiaram de EMB 190 e promessa de compra de carne de porco. Para abafar muito entusiasmo, dos vinte frigoríficos que se candidataram, a China aprovou três!

Acredito, que seria muito mais construtivo e eficiente de, no lugar de ficarem apavorados, os nossos donos de empresas analisassem os métodos de produção, evitarem desperdícios, racionalizassem processos a partir do desenvolvimento de produtos, treinassem apropriadamente seus funcionários, estabelecessem controles tanto na produção como na administração e na contabilidade, para identificar os pontos fracos através de números e fatos.

Para não acontecer, como aconteceu com o empresário do qual falei no início. Quando perguntei, qual foi o resultado do mês de março, se obteve lucro ou prejuízo, disse simplesmente que não sabia. E quando perguntei sobre o comportamento do capital de giro, se acumulou alguma gordura ou sofria de hemorragia interna, perguntou com simplicidade: dá para saber isso?

Pano rápido – como dizia Millôr Fernandes.

Zdenek Pracuch
30/05/11