EXEMPLOS QUE FAZEM PENSAR

Escrevi nalgumas das últimas colunas (O nome do problema é custo, leia aqui; Mão-de-obra qualificada, leia aqui; Dados preocupantes, leia aqui) as dificuldades que a indústria de calçados brasileira tem pela frente. O raciocínio se baseava somente na desvantagem que nossos empresários passam numa competição desfavorável, quando se trata de tributação, das obrigações trabalhistas, do “custo Brasil” onde a estrutura de logística junto com burocracia é de desanimar etc..

Se vamos fazer a comparação com base no salário mínimo dos paises concorrentes, veremos que estamos fora de competição antes de entrar nela, porque falamos só de salário mínimo sem falar das contribuições que recaem sobre o mesmo. A título de comparação vão aqui os números coletados pela World Footwear sobre salários mínimos mensais em US Dólares: França 1.997; Reino Unido 1.650; Estados Unidos 1.445; Brasil 340 (na base de R$ 545 que pouca gente ganha na indústria de calçados, cotação de 1,60); Tailândia 145; China (zona costeira) 141; Indonésia  89; China (interior) 66; Cambodja 53 e Vietnam 52.

Nada animador, não é? Têm outras variáveis que influenciam os números acima, como remuneração de horas extras, horas trabalhadas por dia, existência de benefícios etc. etc., sem falar na produtividade propriamente dita que, no nosso caso, não é lá essas coisas!

E para desdizer tudo isso acima e mostrar o caminho de sermos competitivos mesmo com todos os handicaps acima apontados, aparecem três exemplos que, na impossibilidade de imitar diretamente, pelo menos, nos mostram o caminho a seguir para continuar vivendo e produzindo.

Primeiro exemplo vem da Dinamarca com a empresa ECCO que hoje possui unidades de produção em Portugal, Slovakia, Indonésia, Tailândia e China. ECCO demonstra o caminho com tecnologia inovadora, respeito pela tradição de boa sapataria e profundo conhecimento da anatomia do pé, para produzir calçado leve, em injeção direta de PU, tudo isso numa integração vertical com um número grande de cortumes próprios. Com isso a ECCO ganha uma dianteira muito grande em controle de qualidade e sensível encurtamento de prazos de produção e de entregas. 

Hotter Comfort Concept no Reino Unido produz cerca de 1,3 milhões de pares de calçados por ano, numa das mais eficientes e tecnologicamente avançada fábrica do mundo. Nos últimos seis anos a empresa investiu aproximadamente seis milhões de Libras Esterlinas e planeja investir mais três milhões neste e no próximo ano para aumentar a sua presença nos mercados internacionais e atingir um crescimento de mais 20 %.

Há dez anos atrás esta empresa trabalhava com 57 funcionários. Hoje conta com 380. Num país, onde a indústria de calçados praticamente deixou de existir, convenhamos, que se trata de uma façanha. – As duas empresas, a ECCO e a Hotter tem em comum o uso do mais moderno equipamento, robotizado, de injeção direta, fornecido pela alemã DESMA, que permite grande economia e produtividade de um produto de alta qualidade, em fábricas relativamente pequenas.

O terceiro exemplo a ser mencionado como exemplo é a norte-americana New Balance. A empresa foi comprada em 1970 por Jim Davis e passou por muitas mudanças. A empresa possui hoje cinco unidades de produção, incrivelmente, nos Estados Unidos. A despeito de muitas mudanças tanto dentro da companhia, como no mercado e no comportamento dos clientes alguns princípios foram mantidos. Como o princípio de “Ninguém precisa recomendar nosso calçado”! Um calçado de qualidade não precisa de nenhuma celebridade para o endosso. Em principio esta é uma política que beneficia o consumidor, porque de cada par iriam, em média, cinco dólares para o bolso de alguma celebridade já regiamente paga.

É interessante observar a divisão das operações e a produtividade dos muito bem treinados operários, que ganham em média USD 14,00 por hora. Trabalham em pequenos grupos, onde cada um executa até cinco operações, mudando de atividade a cada poucos minutos. Alguns operam pelos controles computadorizados até 20 máquinas de costura ao mesmo tempo, ou controlam máquinas de costura automáticas, até seis ao mesmo tempo via câmeras. Isso quer dizer que podem produzir cabedais por custos semelhantes a China ou países do Oriente.

Estes métodos permitem à New Balance produzir um par em 24 minutos contra três horas, que hoje necessitam os Chineses. Se os operarários americanos não fossem muito mais eficientes do que os orientais, ganhariam insustentáveis USD 44,00 por par, em vez dos USD 4,00 que custa hoje sua mão-de-obra por par em comparação aos USD 1,30 na China. A diferença de USD 2,70 é facilmente absorvida pelo calçado com preço final de USD 70,00, com vantagem de entregas bem mais rápidas e a flexibilidade de atender os ditames da moda.

Se hoje podemos ter fábricas na Europa, no Reino Unido e pasmem, nos Estados Unidos, competitivas com as indústrias orientais, porque não poderíamos tê-las no Brasil? O que precisamos? Mentes abertas? Coragem para trilhar caminhos diferentes daqueles por onde nossa carroça anda há dezenas de anos?

Temos bastante material para pensar. O que está ficando escasso é o tempo!!!

Zdenek Pracuch
09/05/11