DE QUE SUSTO ESTÃO FALANDO ?
De repente estamos ouvindo de fontes oficiais, que a indústria de calçados de Franca está a perigo, que poderá haver desemprego, que a importação de calçados asiáticos está crescendo e que o governo terá que tomar providências, porque terá que garantir os empregos ameaçados.
Lemos declaração do presidente do sindicato das indústrias, lemos declarações de empresários e ficamos sem saber o que pensar. Será que esta ameaça foi tão repentina para despertar, subitamente, uma reação tão preocupante?
Há mais de dois anos, esta coluna escreve sobre esta ameaça, que não é hipotética, mas é plenamente palpável e documentada. Na memorável entrevista, do ex-governador do Rio Grande do Sul, António Brito, concedida a O Estado de São Paulo, há uns sete anos atrás, Brito já declarou, que não está preocupado com grandes marcas calçadistas do Brasil, mas está preocupado com o destino das fábricas de calçados brasileiras.
Sabia muito bem o que dizia, porque assumiu a presidência da Azaléia, depois do falecimento do saudoso Nestor de Paula, que foi o primeiro industrial de calçados brasileiro a levar uma parte da fábrica dele para China. Se hoje temos uns 500 sapateiros brasileiros trabalhando lá, é o resultado da ação do Nestor de Paula. Procurem saber, quantas indústrias brasileiras de calçados já produzem por lá! Nomes grandes.
Os gaúchos estão invadindo o resto do Brasil, em busca dos empregos perdidos por causa da falta de exportação e do excesso de importações. Por que, de repente, indústrias gaúchas descobriram o mercado nacional e estão lutando para conquistar e reconquistar o espaço perdido para outras regiões e para os importados?
Tudo isso são fatos, que nunca deveriam ter escapado ao observador atento porque há tempos estão presentes no nosso meio. Mas pela repercussão dos últimos números publicados sobre o crescimento de importações e dos números da queda nas exportações, parece que só agora estão criando pânico no meio calçadista.
Não se enganem. Não serão as medidas governamentais, não serão as tarifas protecionistas que irão salvar os empregos e a competitividade das indústrias de calçados nacionais. Não é por aí. – Esta coluna publicou recentemente pequenos exemplos, que merecem ser estudados e, diria eu, seguidos por aqueles que não querem se render sem lutar.
Há anos ensino, falo e escrevo sobre a maneira endêmica de desperdícios na indústria de calçados. Citei muitas vezes o que ouvi do Rei dos Calçados senhor Tomás Bata, numa reunião que tivemos no hotel Sheraton no Rio. Tomás Bata visitou Franca a convite do Wilson S. Mello e passou uma noite na chácara Samello. E me perguntou: “Pracuch, como vai a Franca?” Relatei a situação. A resposta veio, como se estivesse falando para si mesmo: “O pessoal ainda constrói aquelas fábricas de tijolinhos à vista, com caixilhos de alumínio anodizado, e vidros Ray-Ban? Será que ainda não se deram conta que a nossa indústria é uma indústria pobre? Que ela é feita de milímetros, gramas e segundos e ai, de quem desprezar isso!”
Ouvir isto de um homem que tinha (morreu há dois anos) 80.000 funcionários e cujas fábricas produzem até hoje mais de 500 milhões de pares por ano, é algo que não se esquece, e mais – a gente começa a observar com atenção ainda maior o que acontece em redor.
Na coluna Exemplos que fazem pensar – leia aqui; citei três exemplos de fábricas ou empresas, que estão enfrentando a concorrência chinesa com sucesso. Citei exemplo da New Balance, norte-americana que produz calçado, nos Estados Unidos, em 24 minutos, quando os chineses mais eficientes ainda levam 3 horas para concluir um par.
Mas o mais surpreendente e diria até triste para o restante do país é, que hoje temos fábricas em, pasmem, Nova Serrana que fazem o calçado (tênis feminino) em 50 minutos! Já levei até caravanas de Franca, para visitar as fábricas e – aconteceu alguma coisa? Nada. Simplesmente me dizem “que em Franca não dá!” Pelo amor de Deus, como uma fábrica francana quer ser competitiva, quando gasta oito a dez dias, para completar o ciclo de produção?
Não são exceções. É regra! Encontrei uma fábrica onde havia ciclo de 28 dias entre o corte das peças e caixa coletiva do despacho! Como vai competir? Não vai competir, vai fechar!
Há necessidade de se atualizar, de procurar métodos modernos e econômicos de criação, de desenvolvimento, de tecnologia e sair da acomodação, da pasmaceira – sempre fizemos assim e deu certo! Para que mudar? A pergunta é – por que não usam mais as máquinas de escrever, por que não usam mais as calculadoras à manivela, por que não usam mais o telex e cada vez menos o fax? Mas os métodos de confecção de calçados são os mesmos de cinqüenta anos atrás!
É óbvio que o problema é muito complexo. Câmbio desfavorável aos exportadores, juros extorsivos, carga tributária insuportável, legislação trabalhista de setenta anos atrás, infra-estrutura precária, educação, ou melhor, ensino técnico inexistente – uma plêiade de dificuldades com que um empresário se defronta. Mas, cabe a ele fazer a parte dele, no âmbito da empresa – desenvolver produtos perfeitos sob ponto de vista de operacionalidade, sob ponto de vista de economia, de maior valor agregado, criar métodos de trabalho que permitam grande flexibilidade e rapidez – um roteiro de tarefas onde o empresário pode e deve agir.
Já se perdeu tempo demais. Vamos perder ainda mais, esperando que alguém vai tomar as nossas dores e agir por nos? Ou vamos, nos, cada um no seu campo de ação tratar de mudar o quadro e começar a nos defender a partir de dentro das empresas?
Zdenek Pracuch
23/05/11