DADOS PREOCUPANTES
O grande impulsionador da indústria de calçados brasileira foram as exportações. Ainda não se passou tanto tempo para poder esquecer as visitas dos importadores americanos que freqüentavam os hotéis e restaurantes francanos com uma assiduidade regular.
Os tempos eram outros, o couro brasileiro dominava e, por tabela, os produtos nele baseados, principalmente os calçados foram facilmente vendidos nos mercados externos. O mercado era francamente do vendedor. E hoje? Estamos falando sozinhos, português ou inglês, quando o idioma dominante virou o mandarim. E dentro de não muito tempo será novamente inglês acompanhado de hindi.
O ano de 2011 começou muito mal, no tocante às exportações brasileiras de calçados. Pelos dados processados pela Abicalçados, no primeiro trimestre houve uma queda de 34% em pares exportados em relação ao mesmo período do ano passado. E ainda temos que levar em conta que no mesmo periodo do ano passado os nossos clientes no exterior já sentiram os graves efeitos da crise.
Em termos monetários a queda foi de 16% o que pode ser explicado em parte pelo maior valor agregado aos calçados que conseguimos exportar. O que também confirma a tese que, quem sofrerá menos com as importações, são os tipos de calçados de maior valor agregado. A perda dos mercados tradicionais de exportação é impressionante. A perda no mercado norte-americano foi de 77,9% em pares e na Itália, segunda maior importadora foi de 16,5% em pares, e de perda de 35% e 27,3% em valor respectivamente.
Porque se os números de exportação já são desanimadores, os números sobre importações são de assustar. As importações cresceram 49% neste período, sendo que alguns paises tiveram crescimento de certo modo inexplicável, como Taiwan com 477%, a Indonesia que cresceu 195% e o Vietnã 81% em valor.
Estes números variam de mês para mês, por isso é importante não se prender aos valores numéricos, mas acompanhar a tendência. Essa tendência que é preocupante, demonstra, que estamos perdendo mercado internacional e estamos ameaçados no mercado nacional. Não adianta pedir ao governo medidas protecionistas. O Brasil precisa exportar as commodities e os países que as compram só podem pagar com produtos de mão-de-obra intensiva, como é o caso dos têxteis, confecções e calçados.
A catástrofe que pode ser causada pela “reserva de mercado” que o Brasil viveu e até hoje não se recuperou plenamente da legislação protecionista dos governos militares, querendo proteger a indústria brasileira de informática. Até hoje capengamos e pagamos royalties caríssimos para poder acompanhar o desenvolvimento.
Os nossos representantes, tanto sindicais como legislativos melhor fariam, se tentassem promover a revisão tributária e trabalhista, que oneram o calçado em 39,6% no preço e até 102% no custo de mão-de-obra.
Adicione-se a este quadro a inapetência da maioria dos donos de empresas em adotar posturas de terceiro milênio para promover a produtividade, racionalizando os processos produtivos e evitando os desperdícios de tudo e de todos e temos o quadro completo da calamidade que se abate sobre a nossa indústria.
Não é com sobre-taxas protetoras que vamos proteger a nossa indústria, mas é com trabalho consciente de aperfeiçoamento, de racionalização, de criatividade e de economias. Concordo que a taxa cambial é em boa parte culpada pelo descalabro existente, bem como a falta de mão-de-obra especializada, difícil ou quase impossível de se obter. Mais ainda, novamente com a nossa legislação paternalista. Quantos empresários já ouviram: “Não está satisfeito? Me mande embora, vou pegar salário desemprego!”
Entretanto cabe a pergunta: O que Você, dono da empresa, já fez para suavizar a situação do mercado de trabalho? Excetuando o pesponto, sabe que, uma pessoa cujo perfil psicológico foi analisado por uma psicóloga competente, como apta a ser treinada e motivada para o trabalho, pode ser treinada em no máximo três horas por um instrutor competente para qualquer operação na montagem ou acabamento?
O progresso tecnológico é importante, mas não podemos desprezar os aspectos educacionais e de treinamento, os aspectos de liderança e relacionamento humano com os nossos colaboradores. Os funcionários são o nosso ativo mais valioso e o que fazemos para motivá-los e nos ajudar nesta dura batalha que temos pela frente? Olhem mais uma vez os números de exportação caindo e da importação subindo! Como diz o título desta coluna – são dados preocupantes.
Zdenek Pracuch
25/04/11