INDÚSTRIAS DE CALÇADOS BRASILEIRAS
- MULTINACIONAIS ?
E porque não? Já temos alguns dos nomes mais expressivos com fábricas instaladas na China e no Oriente e, pelos resultados não nos consta, de terem se arrependido em cruzar a fronteira num rasgo de pioneirismo.
Na coluna Brasil Está Avançando! publicada aqui anteriormente, fiz uma sugestão no sentido de que não precisamos ir tão longe, cruzar o mundo e procurar outros continentes em busca de condições mais favoráveis e competitivas, para permanecer no mercado. O mundo está se tornando extremamente competitivo. A boa qualidade e novas tecnologias que eram privilégio de poucos estão se tornando patrimônio de todos e o que resta, afinal, será a velha competitividade via preço - o mais barato possível.
Neste ponto estamos levando tremenda desvantagem, como logo a seguir demonstrarei. O calçado acumula durante seu processo produtivo e na venda uma incrível soma de impostos que atingem 39,6 % e, dependendo de insumos mais sofisticados, até mais. Sem falar nos encargos trabalhistas, no custo de mão-de-obra que, diga se de passagem, mal preparada, pouco produtiva e, mesmo assim, escassa. Lembrando também do populismo barato, de uma demagogia sem sentido, querendo impor semana de 40 horas de trabalho pelo mesmo salário de 44 horas!
Se levarmos em conta ausências não justificadas, atestados médicos, licenças maternidade, paternidade e outras, patrocinadas pela legislação, os que dizem que o valor a ser incorporado no custo é dobro daquilo o que o operário embolsa na folha de pagamento, estão absolutamente certos. É assim que vamos competir num mundo cada vez mais competitivo? Num mundo que pode aplicar represálias, caso insistamos demais nas tarifas anti-dumping, ou na proteção do mercado interno. E se os irmãos de olhos enviesados resolverem que não mais querem nosso minério ou soja? Não será o fim do mundo, mas com toda certeza se parecerá com um assim.
Tenho em mãos um estudo comparativo das condições para indústria no Brasil com as do Paraguai. Este estudo me foi gentilmente cedido pelo amigo Jorge A. Queder dono da Consultora Maquila, de Assunción. - É de assustar ou até de se perguntar, porque os industriais do Sul e do Sudeste estão migrando para China ou Nordeste ou Norte do Brasil, se podem encontrar condições, talvez não ideais, mas extremamente favoráveis, em território paraguaio, a dizer assim, no quintal da nossa casa. Para que viajar milhares quilômetros ou dar uma volta ao mundo, se posso viajar de carro e voltar no mesmo dia?
O estudo comparativo foi feito pela FIESP. À pergunta, por que não foi ou é tão pouco divulgado, respondo com outra pergunta: qual é o político que tem coragem de ser acusado de exportador de empregos? Porque queiramos ou não, com a desastrada demagogia sindical e trabalhista, estamos nos tornando uma União Européia que está literalmente forçando as indústrias a emigrar! Onde está a outrora florescente indústria de calçados portuguesa que para uma nação de 8 milhões de habitantes produzia 80 milhões de pares de calçados de couro e abastecia a Europa? Que fim levou a indústria italiana? Onde está a indústria espanhola, que mesmo com a maior taxa de desemprego da Europa não consegue decolar?
É fácil explicar de como atrair e manter indústrias. Vejamos o exemplo do Paraguai, onde hoje já atuam 120 empresas brasileiras, quase todas de confecções, embora já exista uma importante marca de calçados de segurança em franca operação. Mais de 400 empresas estão com processos de registro em andamento. Para começar, para quem se instalar: não há nenhum imposto ou taxa em nível federal, estadual ou municipal para constituir sociedade, importação de bens de capital, remessa de lucros ou dividendos para sócios fora do país, registro de patentes ou direitos de uso e isenção de 95 % de Imposto de Renda por até 10 anos. Uma lei que estabelece total isenção de tarifas, tributos ou taxas para as empresas industriais instaladas no Paraguai com intuito de produzir e/ou agregar valor a bens destinados exclusivamente à exportação. Outras isenções são em tamanha quantidade, que nem cabem numa coluna.
Embora o salário mínimo no Paraguai é mais alto, o custo por funcionário no Brasil é 49,0% mais elevado. Não há FGTS, contribuição sindical, sistema S. Previdência é de 16,5 % sobre todas as remunerações pagas. Férias de 12 dias para 5 anos trabalhados, 18 dias para até 10 anos e 30 dias após 10 anos. Há estabilidade, como antigamente no Brasil após 10 anos. No caso exclusivamente de exportação não há tarifa de importação, nada parecido com ICMS, IPI, Cofins, PIS – alíquota zero.
O estudo demonstra na decomposição do custo de uma calça jeans no valor de venda de R$ 24,00: levando se em conta toda a composição do custo, no Brasil esta calça proporcionará um lucro de R$ 2,03 ou seja, 8,45 %, enquanto no Paraguai pelo preço de venda de R$ 24,00 terá um lucro de R$ 14,48 ou sejam 60,33 %. Não precisamos temer só os orientais. Bem administrados e conduzidos, os nossos vizinhos podem complicar a nossa vida.
Será difícil modificar o comportamento dos governantes do Brasil, quando ouvimos da Sua Excelência Senhor Presidente da República, que devemos ficar orgulhosos, por ter carga de impostos equivalente a das nações do primeiro mundo. Faltou nos dizer porque não temos o nível de educação, de saúde, de segurança etc. igual ao primeiro mundo e, como vamos competir com as nações que não precisam cobrar impostos absurdos e tem tudo o que nos falta ter.
Confesso que fiquei impressionado e muito preocupado com o estudo da FIESP. Um estudo que deveria ser divulgado da tribuna do Congresso do Senado, para ver se algum governante acorda. Por outro lado reconheço que, com os dados, comparações, tabelas e cálculos ao alcance da mão, poderia haver uma fuga em massa dos industriais, premidos pelos custos em busca de soluções do problema, assim tão perto da casa.
Para os que ousarem – boa sorte! A Deusa Fortuna sempre favoreceu os corajosos!
Zdenek Pracuch