A DESINDUSTRIALIZAÇÃO JÁ COMEÇOU ?


Cada vez mais está aparecendo a nova palavra “desindustrialização” de cuja existência ninguém suspeitava. E também não fazia falta no dicionário. Mas, ultimamente, está aparecendo cada vez mais. No Estadão de 16/09/07, esta palavra apareceu algumas vezes e sempre associada a alguma notícia sobre as crescentes importações da China.

Depois de fazer, e continuar fazendo, o estrago nas indústrias de confecções, têxteis, de móveis, de brinquedos, de óculos, de fogos de artifícios, de eletro-eletrônica e eletrodomésticos, sem esquecer a indústria de calçados a última vítima foram os condicionadores de ar, residenciais tipo split, os de maior venda, que desde o mês de agosto deixaram de ser fabricados no país, para serem importados, prontos, da China. É mais um ramo industrial vítima da política de “companheirismo” ideológico que orienta a política externa brasileira.

Só para exemplificar o que representa a porta aberta pela declaração da China como mercado livre: entre 2005 e 2007 a importação de aparelhos de ar condicionado “split system” aumentou 766 %. De máquinas de costura para o uso doméstico 591 %. De torradeiras de pão 511 %. De ferro elétrico para passar a roupa 446 %. De secadores de cabelo 220 %.

Por que, por exemplo, México não sofre deste mal? Porque México como os outros países praticam acordos bilaterais, que protegem até certo ponto os interesses locais contra importações predatórias. Por que o Brasil, oitava potencia econômica do mundo deve seguir a cartilha dos Fidel, Chaves, Morales e Cia? Com seu antiamericanismo doentio? Quem prospera na América Latina? Só os países que fizeram acordos bilaterais, já que ALCA foi sabotada.

Agora, quem sabe, as coisas vão melhorar, admitindo a Venezuela para o Mercosul. Ou, na minha opinião pessoal, desta vez Mercosul acaba de uma vez. – O fato é que o Brasil escancarou a porta para os Chineses, sem nenhuma proteção, sem nenhuma ressalva e estamos fechando não uma indústria só, mas ramos industriais inteiros.

Não se iludam. A invasão está só no começo. Coisas piores virão. Até a toda poderosa indústria automotiva já está preocupada. Com razão. No último Salão do Automóvel já foram exibidos primeiros modelos “Made in China” – pela metade de preço dos modelos nossos equivalentes. Grande façanha – se levarmos em conta que no preço do automóvel brasileiro estão incluídos 50 % de impostos!

Seja como for, os grandes, como Volkswagen, Fiat e Renault já estão produzindo na China e embora o mercado de lá pareça insaciável, é mera questão de tempo quando irão começar a exportar.

A desindustrialização começa nos segmentos que não atraem atenção, ou sob ponto de vista econômico não tem grande significação. Mas, solapando a base da sustentação do comércio, via sub- ou desemprego, esta praga vai se alastrando cada vez mais. Há uns dois anos atrás, publiquei um artigo com o título “Um canavial chamado Brasil”. - O nosso ilustre presidente faz o que pode para promover o bio-diesel e o resto que se dane. Vamos todos para lavoura, se até lá não for totalmente mecanizada.

Nossa base competitiva é muito frágil. Carga de impostos insuportável, infra-estrutura precária, portos desaparelhados, caminhamos célere para um novo apagão energético, saúde pública em situação de calamidade, educação precária, colocando Brasil nos últimos ou penúltimos lugares em todos os concursos mundiais de conhecimentos – o que não é de estranhar, quando o próprio primeiro mandatário do país proclama aos quatro ventos, que um diploma de ensino superior nunca fez falta a ele.

Hoje, quando a educação e ensino técnico deveriam ser considerados prioridade número um, chegamos a situação de ter falta de pedreiros, de carpinteiros ou de armadores para concreto! - O que dizer, então sobre engenheiros de informática, biotécnicos ou nanofísicos?

Num cenário destes, de uma fragilidade total, como podemos impedir que a desindustrialização se torne uma realidade do nosso dia-a-dia? O que adianta publicar estatísticas de como aumentou a renda média da população, de como aumentou o número de carteiras assinadas, de como aumentou o crédito para o consumo? De que adianta comparar este ano com os anos anteriores da “herança maldita”? – Nos temos que comparar a nossa realidade com a realidade do resto do mundo, com as nações de economia dinâmica, agressiva, estratégicamente planejada e próspera.

E o que nos promete o Itamaraty? Aumentar a nossa penetração na África e no Caribe! Já foi esquecida a dívida dos africanos tão generosamente perdoada pelo senhor presidente. - Por que não? Brasil é um país rico e extremamente generoso, perguntem ao Evo Morales.

Procuram-se empreendedores com novas idéias, novos projetos, novos métodos de gestão para reverter este quadro desolador e projetar um futuro mais auspicioso do que este que a falta completa de planejamento e de perspectivas nos foi imposto. Há saídas, sim, mas temos que aplicar uma política industrial e comercial superousada e agressiva. Será que o conseguiremos a despeito do governo a quem falta esta visão?

Como diz Alberto Tamer, comentarista da economia internacional do Estadão: “É nos conhecemos bem a nossa diplomacia comercial brasileira. Quando está com pressa anda para trás. Tem sido assim tempo todo em que ficou engatinhando nas saias esfiapadas das negociações de Doha.”

Zdenek Pracuch