UM CANAVIAL CHAMADO BRASIL.

A presidente da União de Indústrias de Couros e Calçados da República Tcheca, fez uma previsão sombria: Daqui a 20 anos estaremos trabalhando para os chineses, fornecendo a mão-de-obra barata, de qualidade, porque eles poderão pagar para produzir o que não mais interessará a eles ser produzido por lá – têxteis, calçados, brinquedos, etc..

Será que está equivocada ou pessimista demais? Nem tanto. Observemos o que está acontecendo: ainda há pouco tempo existia um grupo de países denominado de BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), que atualmente está reduzido á IC (Índia e China). Brasil e Rússia já são considerados fora da competição. A Rússia pela sua vocação totalitária está voltando devagar, mas inexorávelmente, ao dirigismo estatal. E o Brasil com seu crescimento pífio nos últimos anos (e nada indica que poderá melhorar) já perdeu bonde dos grandes investimentos, tão necessários para o crescimento.

Os dados a seguir foram publicados na Revista da Indústria Brasileira de Maio de 2006, e são de assustar:

- A economia mundial cresceu de 1996 a 2005 3,8 %, e a brasileira 2,2 %, em média. Com esse ritmo a economia do planeta dobra a renda per capita em 30 anos. E o Brasil? Em 100 anos!

- Paises emergentes investiram em atividades produtivas de 1995–2004 em média 30 %. O Brasil investiu 19 %.

– Em 1970 o investimento público no Brasil (que já era pequeno) era de 4 %, caiu no ano passado para 0,5 % do PIB. – No mesmo período a carga tributária brasileira dobrou chegando à quase 40 % do PIB.

O que significa tudo isso? Isso significa que o Brasil voltará a sua vocação dos tempos de colônia. Ou seja, fornecedora de matérias primas e de comodities. As indústrias irão, para onde o clima econômico lhes será mais favorável, para onde os investidores se sentirão melhor e Brasil devagarzinho tornar-se-á um celeiro mundial, com agropecuária gigantesca, fornecendo bio-diesel, energia renovável como álcool, proteínas de soja e de carne e, com sua mão-de-obra barata e abundante, também verá renascer as indústrias de mão-de-obra intensiva e pouco exigida.

Conforme O Globo de 14.05.06, 31 milhões de brasileiros entre 15 a 24 anos só têm até oito anos de instrução. E, mesmo esta instrução é bastante precária, porque mais de 50 % destes não têm condições de interpretar um texto que tenham lido.

Ou seja, matéria prima ideal para mão-de-obra com poucos requisitos, abundante e barata. Só que nestas condições ainda teremos muita gente no mundo para competir com o Brasil.

Causa piedade a ingenuidade de alguns dirigentes calçadistas, que ainda esperam algumas “providencias” da parte do governo em defesa da indústria calçadista. Santa inocência! Como esperar uma defesa do governo, que assistiu passivamente a um roubo do patrimônio nacional pelo governo da Bolívia? Governo que deixou rasgar contratos válidos, que deixou ocupar as instalações da Petrobrás por um exército de opereta e se limitou a emitir uma nota demonstrando a compreensão dele pelos legítimos anseios do povo boliviano?

Este (des)governo vai brigar com os companheiros do Grande Timoneiro Mao? Para defender a indústria têxtil ou de calçados? Governo que depois de três anos não foi capaz de construir um programa? Que vive tapando buracos? Que está em vias de transformar o Brasil num grande canavial? Ser até capaz de entregar a administração deste canavial à cúpula dirigente do MST, que goza tanto respeito em Brasília que pode aprontar o quanto quiser e não vai para cadeia. Aliás, para cadeia só vão as infelizes que se deixam apanhar com uma lata de manteiga na mão. E que as coitadas não tem o plenário da Câmara para absolvê-las.

O pior é, que o que é chamado de oposição, lê a mesma cartilha, também não tem programa, ou até o hoje está o escondendo. Ah, não posso cometer uma injustiça com o governo atual. Sim, ele tem um programa. Programa de se perpetuar no poder o maior tempo possível, usando de todos os meios, comprando votos e corrompendo.

E agora o que esperar dos dirigentes calçadistas? No lugar de fazer incursões inócuas para Brasília, deveriam aparelhar a indústria no sentido de despertar a criatividade, ensinar a trabalhar com produtividade, economia, ensinar a fazer um planejamento a médio e longo prazo, ensinar de como servir aos clientes com entregas rápidas de produtos de qualidade – quantas coisas estão aí para serem feitas, e que nos anos dourados eram solenemente ignoradas!

Ou pretendem esperar até a casa cair de uma vez e no lugar de produzir calçados, vão produzir cana-de-açúcar nos sítios comprados, quando o mundo era tranqüilo e sorria para os calçadistas? Vão ajudar o governo a transformar o Brasil num grande canavial?

Os industriais de fora do Rio Grande do Sul devem perguntar aos gaúchos, enquanto ainda não chegaram a viver esta experiência na própria pele, como é, ter que fechar a fábrica ou ficar sem emprego? Voltei da Europa na semana passada e ouvi esta experiência em outras línguas.

Eles também não acreditavam.

Zdenek Pracuch