NÃO PODEMOS DESANIMAR
Por que digo isso? Por um motivo bastante desanimador, em franco contraste quando retirado do contexto dos acontecimentos e da interpretação dos fatos pelas autoridades, que estão ocorrendo em nossa volta e que tantos se negam a enxergar e tomar providências defensivas, enquanto há tempo e condições para tanto.
O mundo calçadista nacional foi sacudido pela comunicação emitida pela Azaléia/Vulcabrás sobre o fechamento da unidade fabril em Parobé, RS. A notícia por si só desanimadora, ganha ainda outra conotação, por afetar diretamente a economia do município de Parobé, onde Azaléia nasceu e prosperou durante decadas. O destino dos 800 funcionários demitidos é compartilhado com outros milhares de empregos perdidos em decorrência da situação global da economia, gestão inepta dos governantes que permitem uma gastança desenfreada coberta por tributação suicida e alimentada com dinheiro emprestado a juros maiores do planeta.
Somando-se a isto males endêmicos como a falta de ensino, desde os peões do chão da fábrica até os gestores, falta de infra-estrutura para uma logística econômica, a má gestão e imprevidência do empresariado o panorama do futuro está mais do que escuro, sombrio, está negro. Os sinais, como o fechamento da unidade fabril da Azaléia em Parobé, são inequívocos. Aliás, basta ler o comunicado sobre o fato e numa linguagem franca e determinada a diretoria expõe as razões que a levaram a esta decisão.
Diz o comunicado, numa parte que justifica a decisão: “na atual conjuntura econômica brasileira os setores intensivos em mão-de-obra entre eles a indústria de calçados, tem sido obrigados a realizar ajustes em função de vários fatores adversos que já foram extensivamente diagnosticados Mas que seguem intocados pela política econômica e incompreensívelmente com perspectivas cada vez mais claras de consolidação”.
Azaléia/Vulcabrás culpa o aumento de importação dos calçados orientais e a perda de mercados de exportação como a causa principal do fechamento da unidade fabril de Parobé, com conseqüente demissão dos funcionários. Esta era a última unidade no Rio Grande do Sul pertencente a Azaléia/Vulcabrás. A empresa promete manter por três meses todas as conquistas sociais dos funcionários demitidos tais como cesta básica, creche e assistência médica.
Diz mais o comunicado: “Temos feito progressos no ajuste a esta tarefa (manter o mercado) mas a crescente participação de calçados importados no mercado interno e a perda de competitividade nas exportações não favorecem uma expansão expressiva nos nossos volumes de vendas.”
E continua: “Assim os ajustes de produtividade que preferencialmente – para nos e para nossos colaboradores – poderiam ser feitos com “maior produção com os mesmos meios” têm que ser feitos na base de “mesma produção com menores meios”, impondo a nos a dura tarefa de acelerar as reduções de custos para a velocidade determinada pelo avanço das variáveis externas a companhia.”
Sinal dos tempos. Não que estes acontecimentos vieram inesperadamente. Longe disso. Os sinais visíveis estavam no horizonte já por longo tempo, há alguns anos. A pergunta que se oferece é esta: Foi feito tudo, ou pelo menos alguma coisa para sanar ou se antecipar àquilo o que bom senso já previa? A medida ridícula de taxa punitiva anti-dumping, que a experiência de tantos anos do comércio exterior indicava, seria contornada com a triangulação, era saudada como a salvação da indústria nacional contra a invasão do calçado barato oriental. A lá ficamos novamente sentados, acomodados, no dolce far niente.
Escrevi semanas atrás nesta coluna (De que susto estão falando? – leia aqui), que as fábricas chinesas (é lógico que nem todas) produzem calçados em até três horas. Pergunto: quantas fábricas no Brasil podem imitar esta façanha? Se os chineses podem porque nos não podemos. E o melhor de tudo isso é que já provamos isto e temos fábricas, hoje, que produzem calçados em uma hora e meia ou menos! Quantas? Eu conheço duas!
Yes we can! Proclamou presidente Obama. Será que acharemos um Obama no meio de calçadistas?
Zdenek Pracuch
27/06/11