MÍSTICA DA ZAPPOS
Para quem não ouviu falar da Zappos, posso dizer que Zappos é um nome de fantasia da, hoje, maior vendedora via e-commerce, ou seja via Internet de calçados e confecções do mundo. É posicionada em sexto lugar como empresa onde é mais aprazível para trabalhar, na avaliação da revista americana de negócios Fortune.
Acabei de ler o livro “The Zappos experience”da autoria de Joseph A. Michelli, que mandei vir dos Estados Unidos, motivado pela importância cada vez maior, daquilo o que chamo de ativo intangível, ou seja, nossos funcionários e colaboradores, sejam eles de qualquer ramo empresarial. O fato é que empresa alguma pode prescindir do elemento humano e aos poucos estamos descobrindo de como tratar este bem tão valioso, tão valioso, que não há nenhuma maneira de avaliar em termos financeiros o que ele representa para o sucesso de qualquer empresa.
Já havia encontrado várias referencias ao orgulho com que os “Zapponians” se apresentam, sobre o esprit d’corps, o orgulho de pertencer e colaborar nesta empresa. Tenho alguma experiência neste sentido, porque já tive o prazer de trabalhar em três firmas onde este princípio era praticado e levado às últimas conseqüências. Duas das firmas foram estrangeiras e uma no Brasil.
A primeira foi a BATA, fundada há 108 anos e hoje ainda é o maior conglomerado da fabricação e distribuição de calçados do mundo, com mais de quinhentos milhões de pares por ano. Lembro-me vivamente do orgulho de vestir o uniforme azul marinho com botões dourados e quepe dos oficiais do exercito, que nossa escola usava. E até hoje, mesmo depois de a fábrica ter sido “nacionalizada” pelo governo comunista e sua sede ter sido transferida para o Canadá, ainda hoje quando nos veteranos nos encontramos, rejuvenescemos sessenta anos no mínimo!
A segunda firma com espírito corporativista entre os funcionários era a F.Hollander AB, com sede em Estocolmo na Suécia, onde colaborei durante sete anos. Tínhamos escritórios em 18 países diferentes, mas fosse na Nova Zelândia, no Zimbábue, na Rússia ou Argentina, todos falávamos a mesma linguagem e os interesses da firma eram os interesses nossos. Quando o Fritz Hollander, um velho judeu de mais de setenta anos me chamou no dia de Natal para uma reunião urgente para Nova York, não pensei um segundo sequer e fui. Que trouxe uma bela gripe, por ter encontrado Nova York debaixo da pior nevasca de muitos anos, já foi outra história.
E no Brasil? Tínhamos esta firma em Franca. E a temos até hoje. Chama se Samello. Colaborei na Samello na década dos anos sessenta. E compartilhei o meu orgulho junto com tantos amigos, que mantenho até hoje de ter trabalhado sob a batuta do inesquecivel regente Wilson. S. de Mello. Se os dirigentes da Zappos tivessem oportunidade de visitar e conhecer a Samello, com certeza muitos erros e tentativas de acerto teriam evitado, observando como o Wilson dirigia a fábrica e se comunicava com os funcionários. Não só do nível administrativo, mas com o pessoal do chão da fábrica a quem tinha o prazer de comunicar os planos dele, de como prosseguiam, aceitava sugestões e dialogava com eles de igual para igual.
Quando merecidos, os elogios eram proferidos em voz alta na frente de todos mas, se o caso fosse uma critica, também todos participavam e aprendiam. Ou seja, o sistema Zappos praticado há cinqüenta anos atrás. Sistema do princípio de engajar, inspirar e decolar! Segundo pude observar de longe, o Amazonas também de Franca, observava princípios semelhantes, valorizando a ação dos funcionários e teve um retorno que fez dela uma das maiores fábricas de borracha do Brasil.
O próprio método da Zappos no recrutamento dos funcionários, seja para o mais alto posto ou para embalador das encomendas, segue o mesmo princípio. Ninguém é mais que outro. Os futuros altos executivos sentam no mês do curso de Filosofia da Zappos, junto com a mocinha que trabalhará no call-center no atendimento dos clientes. Por quê? Porque os dois serão Zapponianos e trabalharão com o único propósito de servir e de servir cada dia mais e melhor a clientela que também cresce a cada dia.
O interessante é que os conhecimentos técnicos não pesam na avaliação dos que procuram o trabalho tanto, como os valores humanos. A técnica pode ser ensinada para as pessoas que tem motivação para aprender. Mas o trabalho em equipe a disposição de ajudar o colega em dificuldade, a disposição de fazer qualquer trabalho numa emergencia são valores que contam muito mais. Os próprios diretores e acionistas principais da Zappos entrevistam cada um dos selecionados depois dos testes a aprovações.
Dos 30.000 candidatos ao emprego em 2011, passaram por este crivo tão somente 415. Mas até neste ponto Zappos age com seres humanos. Os “descartados” recebem uma carta com motivos por que não foram aceitos, para que numa futura tentativa numa outra empresa saibam o que devem evitar para não perder uma oportunidade.
Estamos no terceiro milênio. O ativo intangível ganha maior peso a cada dia. Empresario que não souber cercar-se de pessoas selecionadas, escolhidas a dedo, não vencerá sozinho os desafios que este século nos apresenta. Somente as empresas que tiverem uma força de trabalho coesa, bem treinada e orientada sobre as metas que ela pretende atingir e principalmente uma equipe disposta a colaborar neste sentido, poderá vencer.
Da mesma maneira que as empresas adotam novas tecnologias e modos de gerir, está passando a hora de aplicar estes conhecimentos também na condução do relacionamento com os recursos humanos.
Zdenek Pracuch
19/03/12