O VALOR DO TEMPO

O velho chavão – O tempo é dinheiro – de tão repetido, parece que perdeu o sentido. Pelo menos, é o que pode ser deduzido do comportamento da indústria de calçados no Brasil - o tempo é de graça e pode ser desperdiçado, como tantas outra coisas estão sendo desperdiçadas sem o menor constrangimento. Com a maior naturalidade.

A logística de nossas fábricas, no tocante ao lay-out , na maioria dos casos é uma calamidade. Tempos perdidos no carregamento de serviços de um lado para outro, que aumenta o tempo de permanência do produto no chão da fábrica é considerado como parte natural do processo e pouquíssimos gerentes de produção conseguem ver e analisar o que está acontecendo.

Todas as vezes que um produto é carregado de um lado para outro, estamos pagando o tempo do operário sem acrescentar um milésimo de Real ao valor do produto. Será que isso é tão difícil de entender? Quanto tempo leva uma pespontadeira para arrumar os vinte pares de uma caixa na mesa da máquina de costura? Sem observar, que algumas peças caem, serão levantadas, acomodadas novamente e nesse meio tempo a máquina está parada, sem produzir. Quantas vezes por dia isto acontece?

Quando em 1961 introduzi a pedido do Wilson Sábio de Mello a primeira “esteira” como se acostumou a chamar o transportador mecânico de calçados, era uma revolução no conceito de manufatura. Embora o primeiro transportador deste tipo tenha sido criado já na década dos vinte do século passado na fábrica Bata na ex-Tchecoslovaquia! Veio para Franca  com quarenta anos de atraso e só veio, porque Wilson o viu na Europa e não descansou até tê-lo na própria fábrica.

O meu querido amigo Delmo Poppi poderia contar a história de como começou a fabricar as “esteiras”, que depois encheram a indústria brasileira e os jovens de hoje não fazem idéia, como poderia funcionar uma fábrica sem elas. – Só que a evolução não parou na introdução de “esteiras”.

Hoje produzimos em algumas fábricas em Nova Serrana o calçado em uma hora e meia, desde as peças cortadas, preparadas até a caixa coletiva do despacho. É uma façanha, levando em consideração, que Nova Serrana começou a produzir calçados há trinta anos atrás. Mas, também, não é nada tão extraordinário, levando-se em conta, que as fábricas chinesas, as modernas, produzem o calçado em três horas e New Balance nos Estados Unidos produz um par em 24 minutos!

Em contrapartida, encontrei fábricas em Franca, com giro de mercadoria abrangendo um mês. Com mais de vinte planos de produção diária em aberto, com cinco dias úteis por semana, temos um mês de faturamento descansando, empoeirando e desbotando no chão da fábrica. Haja capital de giro para agüentar uma gestão destas!

Não há nenhuma desculpa plausível para este descalabro. A única justificativa válida é a  obsolescência da mentalidade dos dirigentes, sejam eles os donos das empresas ou gerentes de produção. A desculpa de variedade de modelos, da interferência do departamento de vendas forçando prioridade para determinados pedidos e desorganização dos pespontos, nada justifica o presente desperdício de tempos.

Como queremos competir com orientais? Já não digo em exportar, mas competir no mercado interno com os importados? Com esta maneira obsoleta de gerir a produção de nossas fábricas? Há mais de vinte anos atrás, meu colega Romeu Caetano Cintra escreveu um artigo para o suplemento “Atualizado” do Comércio da Franca. O título do artigo era – Programar não é digitar os pedidos na ficha de produção!

Infelizmente, em muitas fábricas de hoje esta é a regra. Digitam-se os pedidos e um pacote, representando uma semana de produção é jogado no colo do infeliz gerente de produção. Vire-se! É lógico que o gerente está tão ocupado em “tocar” a produção, que não lhe sobra o tempo para parar e raciocinar o que poderia ser feito de modo mais econômico e mais produtivo.

Já escrevi várias vezes que o tempo é a única commodity que não poderá ser comprada. Um minuto perdido é um minuto perdido para sempre. Não existe recuperação possível. Se alguém acha que pode recuperar sacrificando horas de descanso, de lazer, de leitura ou de passeio, está enganando a si mesmo. Se aplica este tempo ao trabalho perdido está perdendo os momentos que poderiam ser aproveitados de outra, talvez, melhor maneira. O fato é que, o tempo perdido nunca poderá ser recuperado.

Na Calçados Samello, na década dos sessenta do século passado tínhamos giro do produto de três a quatro dias. Como justificar que cinqüenta anos depois  a maioria das fábricas não consegue um giro melhor do que oito a doze dias? Vai ser difícil fazer frente aos orientais!

Zdenek Pracuch
10/10/11