UMEDECIMENTO DE CABEDAIS
Os sapateiros antigos, sem ter conhecimentos específicos sobre a histologia de couro, por experiência ou por intuição, tratavam os cabedais antes da montagem, de maneira apropriada.
Que maneira era esta? Umedeciam a parte da gáspea pelo lado do carnal e enfiavam o cabedal por 24 horas num saco de aniagem. Simples, não é?
Precisávamos da invenção de um microscópio eletrônico com ampliações de até 75.000 vezes, para descobrir que as fibras que constituem o couro são ocas por dentro, que as moléculas d’água sobem por este canal pelo efeito de capilaridade e, para que a fibra ficasse umedecida e flexível, necessitava de 24 horas. Ou seja, a intuição ou experiência dos velhos sapateiros foi confirmada pela ciência.
Embora possuamos todo este conhecimento, no caso do calçado de couro ainda há fábricas, que encharcam o cabedal d’água na hora de montar e depois se admiram que o couro trincou no bico! E reclamam do curtimento falho.
Se às fibras não foi dado o tempo suficiente para absorver a umidade, de nada adianta acrescentar à água o tal de “amaciador”, álcool, nem água benta. Nada disso tornará as fibras mais flexíveis. Ainda na década dos sessenta, quando entrei na Samello, por exemplo, existia um cômodo saturado de umidade onde os cabedais costurados ficavam pendurados durante dias para adquirir a maciez necessária para uma boa montagem.
Hoje me arrependo, que em nome do fluxo de produção mais rápido, recomendei a abolição deste sistema acreditando, erradamente, que os vaporizadores na época introduzidos, podiam substituir esta técnica antiga. Hoje sei, que os vaporizadores podem ajudar, mas não oferecem a solução completa. As moléculas do vapor-água ficam entre as fibras, que permanecem duras, porque o tempo do umedecimento é curto demais para o fenômeno de capilaridade.
O que não faz sentido nenhum é a vaporização dos cabedais de materiais sintéticos que podemos observar em quase todas as empresas que produzem tênis. - Todos os polímeros são impermeáveis à ação d’água. Estes amolecem devido ao calor do vapor, mas não se estendem pela ação da umidade, não ficam flexíveis, como o faria o couro natural nestas condições.
Uma estufa que irradiasse o calor seco sobre a superfície externa do cabedal sintético teria o mesmo efeito de um vaporizador. Com a vantagem de não encher o interior do cabedal (principalmente do calçado ensacado) com a umidade como o faz o vaporizador.
Esta umidade interna é responsável em boa parte, pela má colagem de solas, mas isso só será descoberto no uso, quando já será tarde!
O caso da umidificação desnecessária e até prejudicial é ilustrativo para outros casos, numerosos, dentro da produção, que não resistem à uma análise mais técnica ou até puro bom senso. - A competição, com os concorrentes adiantados e melhor preparados tecnicamente, não será fácil.
Zdenek Pracuch