QUEM VAI CALÇAR A TERCEIRA IDADE?

Segundo nos informa o IBGE, dentro de vinte anos os idosos superarão em número os jovens no Brasil. Até certo ponto estas projeções e estatísticas devem ser levadas a sério e não resta dúvida de que este fato terá profundas repercussões mercadológicas e os produtos de consumo terão de adaptar-se às novas situações.

Já hoje a parcela dos idosos com as suas exigências particulares influencia de um certo modo a composição dos produtos nas prateleiras de supermercados e o sortimento nas lojas de confecções e de produtos de consumo, incluindo calçados.

Mas, da parte da indústria, da parte dos produtores, a terceira idade continua solenemente ignorada e não há, com raras exceções do tipo “dr. Scholl”, um segmento que se dedique exclusivamente ao atendimento das necessidades deste grupo em constante crescimento, nada desprezível em termos numéricos.

Porque será? Será que o mercado está tão bom, que não há necessidade de procurar novos nichos? Que os clientes estão em fila esperando o que jogaremos no mercado? Acho que esta situação de uns vinte, trinta anos atrás está irremediavelmente perdida para sempre.

O motivo maior é de que pouca gente sabe o que fazer para entrar neste mercado que cresce a cada dia. Mercado com pessoal de boa renda, que não irá mais investir na compra de imóveis e chácaras, de carros, ou de equipamentos caseiros porque no decorrer do tempo já juntaram tudo o que achavam que seria enriquecimento e melhoria do nível da vida, para começar a descobrir, que estes valores, no fim da vida nada representam. E que levando uma vida simples, com saúde e conforto é plenamente satisfatório e que, de fato, a vida gira em torno destes dois valores: SAÚDE E CONFORTO!

E é isso que os calçados devem proporcionar. Não é de estranhar, que a indústria nestes termos oferece tão pouco. Nosso modelistas ignoram, com raríssimas exceções, repito – raríssimas exceções, tudo sobre a anatomia do pé e sobre a bio-mecânica e em torno destes termos que se situa esta questão toda. Não que não tenhamos elementos, mais do que suficientes, para atender a estes ditames. O trabalho feito pelo IBTeC é espetacular e Tecnicouro traz subsídios mais do que  suficientes para ajudar a construir calçados dentro das solicitações do novo mercado.

Acontece que o calçado deste tipo deve ser construído de dentro para fora e não de fora para dentro, o que é feito com cem por cento dos modelos. Para cliente comprador (atenção! Quando digo comprador trata-se do comprador final na loja e não do comprador de grandes cadeias de lojas, ou do lojista, que só quer saber do preço mais baixo possível e se calçado for feito de papelão tanto se dá!), não faz a mínima diferença se a costura ornamental será feita com linha 10 ou 20 ou 30 ou se o forro terá a mesma tonalidade do atacador.

O que ele procura é conforto aliado à saúde. O que quer dizer isso? Não adianta afirmar que o forro é de couro, se este couro for acabado com polímeros e ganhou as mesmas características de um material sintético; se a palmilha leve e agradável foi prensada em E.V.A. e depois revestida de um sintético que faz o pé afogar em próprio suor, embora os pés da terceira idade já não exsudam tanto suor como os pés dos jovens, mas ainda é o bastante para sentir incomodo. De que adianta usar couro no cabedal, acabado com polímeros que impedem a transferência de umidade para atmosfera, igualzinho a um sintético qualquer, que transforma o calçado em forno de micro-ondas?

Os “jovens” velhos que vemos caminhar com tênis, meias brancas, uma bermuda da moda e boné na cabeça irão apreciar muito mais um tênis leve, feito de mesh de nylon ou até de lona comum de algodão, mas que refresque os pés e cuja textura permita uma ventilação natural.

Estes são os critérios que deveriam orientar a quem quiser entrar neste mercado promissor, que se preocupa, repito mais uma vez, com saúde e conforto. É natural, que esta entrada deve ser acompanhada de um trabalho mais de que perfeito de orientação, de propaganda, de treinamento dos balconistas para saber esclarecer os pontos básicos desta concepção do calçado destinado em primeiro lugar para terceira idade.

O calçado, naturalmente, será elegante, agradável á vista, mas será construído de dentro para fora a partir de uma forma que atenderá a modificações anatômicas de um pé que já caminhou distancias enormes durante anos. Atenderá na escolha de materiais que devem ser dentro dos padrões de saúde e de conforto. O preço? Será levado em conta como último dos questionamentos. Nesta idade, a quem a vida já deu de tudo, o que importa é a saúde e conforto. E estes dois itens não têm preço, ou melhor, valem qualquer preço.

Zdenek Pracuch