LUGAR AO SOL DOS PEQUENOS
Passei uma semana gratificante em Santa Catarina , prestando assistência numa indústria de pequeno porte, administrada por pai e filho. Embora o pai cuide de diversos interesses, dedica grande parte do tempo à indústria de calçados. Formado em administração e o filho terminando a engenharia de produção, foram parceiros bem preparados para discutir a modernização e atualização da indústria deles.
Longe de qualquer “cluster” calçadista, sem um viveiro de mão-de-obra e com nenhuma experiência, praticamente, do ramo, era surpreendente até que ponto conseguiram levar a indústria em 13 anos de existência.
Os problemas existiam e, ainda existirão por algum tempo até as mudanças serem completadas, na área operacional e na área de gestão também. Na área operacional até que não eram tantos. Normais em indústrias de pequeno porte, onde os donos acham que a presença deles é suficiente para evitar desperdícios e não há necessidade de controles mais sofisticados e eficientes.
Falta de um almoxarifado organizado, compras feitas na base da avaliação visual das prateleiras, desperdícios no corte, com o "self-service” do material pelos cortadores, logística dispendiosa de movimentação de produtos, excesso de colagem no pesponto, nenhuma idéia sobre cronometragem dos tempos, tratamento inadequado do processo de colagem etc. etc. – ou seja problemas endêmicos das micro e pequenas empresas.
Na parte da gestão, pragmática, sem nenhuma preocupação de controles mais eficazes, o quadro era igual a maioria das empresas. Não havia planejamento de vendas, de compras, a programação não existia, os cortadores cortando as grades com o pedido original na mão, nenhuma idéia sobre os resultados, sobre o capital de giro, planejamento financeiro e assim por diante.
É impressionante o volume de trabalho que pode ser vencido numa semana, de sol a sol (graças a Deus, os dias estão mais curtos!), quando há motivação e interesse em melhorar e adquirir a competitividade com os concorrentes melhor preparados, com mais tempo no mercado e mais experientes.
Quando via o entusiasmo e a vontade de acertar, modernizar a logística, preparar a fábrica para introdução de esteiras tanto no pesponto como na montagem, introduzir os controles e acompanhamento de resultados, intimamente vibrei, pensando – mais uma fábrica que vai escapar incólume da ameaça que paira sobre as fábricas brasileiras.
A vantagem desta indústria é ser pequena e com isso muito mais flexível e adaptável às novas condições do mercado, não carregar o peso da tradição e obsolescência tanto nos métodos de produção como na mentalidade dos dirigentes. Ao mesmo tempo que esta empresa prepara se para modernizar no campo industrial, está se articulando para novas realidades na área da comercialização, com pesquisa de mercado específica para descobrir os nichos mais promissores, com mudança na técnica de vendas e no atendimento aos clientes.
Fazia muito frio. Voltei gelado, mas por dentro aquecido pela certeza de ter colaborado para garantir futuro de um empreendimento que representa muito para uma comunidade minúscula de 2.600 habitantes.
Zdenek Pracuch