COZINHANDO SAPO

Quando se coloca um sapo num pote de água fria em cima de fogo aceso, o sapo fica na água, acostumando-se com aumento da temperatura ... até ficar cozido. Se o sapo for jogado num pote com água fervendo, salta para fora no mesmo instante. Nunca fiz esta experiência (e nem vou fazer), mas já li esta afirmação em vários trabalhos, feita por autores de respeito.

Que até o ser humano se acostuma com adversidades, até o ponto de conviver normalmente dentro de ambientes dos mais desfavoráveis, temos provas diárias. Vivi todos os anos da Segunda Guerra Mundial, sob ocupação alemã na Europa e posso afirmar, que a gente se acostuma com toda sorte de privações, sem sentir, desde que não sejam radicais.

Por que este preâmbulo? Na semana passada estive reunido com dois empresários do setor calçadista de Franca. E no meio da conversa sobre a situação atual da indústria, mencionei o fato dos sapos cozidos, comparando os ao comportamento da maioria dos empresários do setor dos calçados, que fingem que nada está acontecendo, sempre possuídos de doce ilusão que alguém vai fazer alguma coisa para mudar a situação.

Ainda bem que não são todos. Tenho entre meus clientes fábricas que estão lotadas de pedidos, com vendas para próximos dois meses fechadas e, a despeito da crise tão falada, estão vendendo muito bem e não vendem mais com medo de comprometer as entregas.

Qual é o segredo? Aplicaram remédios indicados para a situação.

Quais são os remédios?

Em primeiro lugar EVITAM DESPERDÍCIOS DE TODA ORDEM.
Em segundo lugar MELHORARAM A QUALIDADE A PARTIR DA MATÉRIA PRIMA. – Estes foram requisitos básicos, fáceis de serem conseguidos porque dependem da ação e da vontade interna.

A segunda parte de melhora já não é tão fácil de se conseguir, mas quanto mais postergada fica, mais difícil tornar-se-á de conseguir. Primeiro requisito para permanecer no mercado numa posição vantajosa é CRIATIVIDADE E ORIGINALIDADE do produto. Não adianta navegar na internet com intenção de copiar os modelos ou copiar os modelos bem sucedidos do vizinho. Originalidade é resultado da inspiração e, em maior parte ainda, de transpiração. Originalidade significa pesquisa do mercado, a procura daquilo o que mercado pede e não encontra, de nichos específicos.

Segundo requisito é UM PREÇO CONVIDATIVO E JUSTO. Como conse-gui-lo? Apreender a calcular para terceiro milênio, mas antes enxugar os custos. Evitar desperdícios é o primeiro passo. O segundo é RACIONALIZAÇÃO e RE-ESTUDO DE PROCESSOS a partir da modelagem.

E, finalmente, o terceiro é o SERVIÇO. Serviço que começa com entrega pontual e, melhor ainda, com pronta entrega, permitindo ao varejista um giro mais rápido do capital (escasso) dele. E que termina com atendimento após-venda com a coleta de informações para aperfeiçoar cada vez mais o produto, a venda e o atendimento.

Quanto trabalho ! – que não está sendo feito, enquanto a água está esquentando e cozinhando nossos sapos, que ainda esperam por um milagre. Que a China vai ser vítima de um tsunami que vai varrer o continente asiático para Oceano Pacífico ou Índico, que o (des)governo brasileiro vai negociar Alca e pára de ceder vantagens aos argentinos em troca de nada, que vai dificultar mesmo a exportação de couro de boa qualidade ou em wet-blue e tantos outros milagres.

Mas enquanto estes milagres não acontecem e, pelo andar da carruagem, nunca acontecerão, seria interessante que os nossos sapos pulassem do pote, antes de perderem a consciência do que foram vítimas. – Ainda há tempo de reagir e de se defender. Para isso acontecer, em primeiro lugar, deve haver uma mudança da mentalidade empresarial mas, de todas as providencias acima apontadas, esta é a mais difícil de acontecer. As banhas acumuladas durante anos de acomodação não o permitem.

Zdenek Pracuch

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