HÁ MUITO A SER RECUPERADO.

Há vários anos que presto assistência aos empresários da indústria de calçados. No entanto, sempre me surpreendo de novo, quando vejo com que leviandade a grande maioria deles faz gestão das empresas deles.

Há várias justificativas e desculpas para este estado de coisas. Falta de preparo formal, falta de colaboradores capazes, educação para negócios na época da inflação, da sonegação deslavada e de salários baixíssimos – tudo isto não ajuda a ter uma visão empresarial adequada à economia globalizada e altamente profissionalizada.

O empresário padrão só está preocupado com o valor do faturamento. Vive na doce ilusão que está ganhando dez, quinze ou vinte por cento sobre o custo calculado. Disse – “na doce ilusão”, porque em primeiro lugar não sabe fazer o custo como deveria ser feito no terceiro milênio, como todos os nossos concorrentes globais já o fazem e, segundo, porque dentro do custo dele não estão incluídos prejuízos com má compra, má administração de material, mau aproveitamento do corte etc. etc. etc.. – Depois disto, quanto é que sobrou do lucro presumido, seja lá o que isto for? Não adianta dizer, que tem umas “gorduri-nhas” ocultas no cálculo. Estas “gordurinhas” só servem para torná-lo menos competitivo e, de qualquer modo, ele as perde, logo quando o agente comprador começa fazer o leilão entre os fabricantes.

Esta é a parte econômica. E a parte financeira? Acompanho trabalho de alguns peritos financeiros, que enchem o infeliz empresário de números, gráficos, de coeficientes de liquidez, de retorno sobre o capital e assim por diante e quando perguntam no fim da exposição, os responsáveis pelo show de ciência contábil – “Está claro? Tudo entendido?” O que resta ao pobre empresário? Confessar a sua ignorância e dizer que não entendeu nada? Então concorda e fica na mesma dúvida de antes: - Como será que estou?

O rei dos calçados Jan A. Bata escolheu no começo dos anos trinta do século passado um gênio de contabilidade e de matemática, senhor Muska (o nome é tcheco e pronuncia se Muchka), para criar um sistema simples e eficaz para apresentar semanalmente (!) a evolução ou involução do capital de giro, dos resultados econômicos das empresas dele e o esquema de um planejamento financeiro, com acompanhamento de tudo, semanalmente. Para que as medidas corretivas pudessem ser tomadas sem demora. Um mês para ele era uma eternidade, principalmente quando algo precisava ser corrigido. Como resultado, Bata Shoe Organization virou um gigante, é altamente lucrativa, produzindo mais de um milhão de pares de calçados por dia.

Quando Bata sentiu a aproximação da Segunda Guerra mundial e prevendo que Alemanha ia invadir a Tchecoslováquia (hoje dividida), fez emigrar o senhor Muska para os EUA. onde, infelizmente, morreu de câncer em Chicago logo após a guerra. Mas o sistema dele continua a ser utilizado até hoje como foi idealizado, atualmente com a vantagem de ser operado por computadores, com que ganhou em flexibilidade e em rapidez.

Muitas vezes chamei (e escrevi idem) os empresários da indústria de calçados de heróis, pilotando um Boeing-Jumbo com 400 pessoas a bordo (sem contar os dependentes), num nevoeiro e sem instrumentos, pelo modo como geriam as suas empresas. Hoje temos ainda os chineses, vietnamitas e indianos para piorar as condições de vôo. Nestas condições, alguém arrisca uma aposta sobre uma aterrissagem segura? - Não será difícil, será impossível.

Como posso dirigir uma empresa, se não tenho planejamento de vendas, se não tenho conseqüentemente planejamento de compras, se não tenho sistema de cálculo de consumo, se não acompanho os desperdícios no corte, se não tenho um cálculo de custo moderno, se não tenho controle de estoques, se não tenho contabilidade de resultados, se não tenho planejamento financeiro (não é só o fluxo de caixa! Há muito mais num planejamento de finanças!), se não tenho acompanhamento da evolução do capital de giro? Podem alinhar estas perguntas e fazer um “x” ao lado daquilo o que tem e praticam. Pergunto mais: praticam este ferramental uma vez por ano, uma vez por semestre, uma vez por trimestre, uma vez por mês, uma vez por quinzena, uma vez por dezena ou uma vez por semana?

Se o empresário não pratica o que foi acima especificado, não é ele quem dirige a empresa. É a empresa que dirige a ele!!! Um ponto temos que creditar aos nossos empresários: de onde eles podiam adquirir estes conhecimentos? Quem poderia ensiná-los? Quem, ao menos, poderia dizer a eles que estes assuntos existem e são vitais para uma gestão sadia e lucrativa?

Nunca é tarde demais para melhorar. Desde que exista a vontade.

Zdenek Pracuch