FUTUROLOGIA? NÃO, REALISMO.

Podemos notar certa perplexidade no meio dos donos de empresas calçadistas. De repente estão se defrontando com situação inusitada para a qual não há precedentes e regras de comportamento.

O panorama, de fato, é bastante assustador. Mercado exportador encolhendo a olhos vistos, mercado interno sofrendo cada dia mais a concorrência dos importados, principalmente no segmento do calçado mais barato, descapitalização do varejista que significam pedidos cada vez menores com prazos de entrega difíceis de cumprir, principalmente por causa da falta de estrutura das empresas.

Cenário nada animador para quem se acomodou e achava a falta de vendas no primeiro semestre como “normal”. Só que agora não é normal. Agora representa a mudança profunda no mercado de calçados. Mudança esta que está mostrando o despreparo de empresas e dos donos de empresas para dominar uma situação que foge aos padrões habituais, onde bastava imitar o que os outros faziam, e bem ou mal, no fim dava certo.

Evitei usar a palavra “empresários”, porque no meio de donos de empresas temos, felizmente, empresários que, a despeito da situação desfavorável, ainda estão vendendo bem e produzindo dentro da mais absoluta normalidade. São poucos, é verdade, mas a simples existência deles demonstra, que há meios de enfrentar a borrasca.

Trata-se de uma desgraça anunciada. Tenho em mãos o trabalho do prof. Hélio Braga Filho “A reorganização da Indústria de Calçados de Franca” publicado na FACEF Pesquisa v.3, n.2 em 2000. Numa linguagem acadêmica o prof. Hélio define com exatidão as causas da presente preocupação: “... acreditamos, que o surgimento da indústria calçadista de Franca baseou-se na própria especialização desenvolvida em função da sua formação econômica que acabou transformando-se em vocação. Porém, o desenvolvimento da vocação baseou-se mais na obtenção de vantagens comparativas – disponibilidade de matéria-prima e mão-de-obra abundante – e na inserção passiva nos mercados do que, no fortalecimento e no desenvolvimento de vantagens competitivas e na inserção ativa nos mercados

“No plano interno, a manutenção das deficiências estruturais como a concentração e má distribuição de renda, desequilíbrios regionais, entre outras, restringiram de certa forma as possibilidades de crescimento e de desenvolvimento da indústria em tela, voltadas para dentro, Isto é, para mercado doméstico.”

Prossegue prof. Hélio: ”No plano externo, a destinação de produção, isto é, da produção destinada á exportação para um único mercado, resultou na dependência e na fragilidade da indústria, limitando e restringindo, pela falta de uma estratégia mais consistente e competitiva, as possibilidades de crescimento e desenvolvimento voltadas para fora, ou seja, para o mercado externo.”

“Diante dos argumentos expostos, – ainda prof. Hélio - supomos que a defasagem tecnológica dada pela obsolescência das máquinas e equipamentos, o prolongamento da vida útil destes, e, a ausência de investimentos em modernização e/ou ampliação da capacidade produtiva instalada, refletem entre outras causas, a manutenção das debilidades estruturais internas, o enquadramento da indústria num mercado pouco competitivo – isto é o final da década de 80 -, e a inserção passiva no mercado externo.”

“Ao nosso ver, estas, entre outras, limitaram e restringiram as possibilidades da indústria calçadista de Franca de realizar o seu potencial de crescimento.”

“Cumpre ainda ressaltar que enquanto a economia brasileira era “fechada” (no caso entende-se menos exposta à competição internacional) parece-nos ter ocorrido uma espécie de acomodação ....” define e diagnostica prof. Hélio.

É óbvio, que outros fatores, como câmbio desfavorável, tributação excessiva, política de benefícios trabalhistas únicos no planeta e juros altos em nome do combate à inflação contribuíram poderosamente para o presente estado de coisas. – Mas volto a perguntar, como já disse acima: por que alguns empresários prosperam a despeito de condições adversas que afetam a todos do mesmo modo?

Prof. Hélio Braga Filho, como observador objetivo e insuspeito diagnosticou a resposta à pergunta acima. Não fez nenhum exercício de futurologia. Simplesmente avaliou e interpretou a realidade. A palavra-chave é “acomodação”. No mundo dinâmico do terceiro milênio a acomodação e a passividade são punidas com sentença da morte.

Zdenek Pracuch

P.S. - A sua empresa está preparada?
Avalie sua competitividade! - clique aqui.