CONTROLE DE QUALIDADE
Muitos empresários ainda não se deram conta de que o pezinho mais importante do tripé da sobrevivência da indústria de calçados é a qualidade. Os outros dois pés – a criatividade, originalidade e o serviço – são também de suma importância, mas a qualidade é, sem dúvida, o fator mais importante. Se até os chineses já entenderam isso!
Quando introduzo o sistema de qualidade nas indústrias que me solicitam assistência, não me surpreendo mais com a exclamação: Você quer me quebrar, minha folha já passa dos limites! – quando recomendo a criação do cargo de um ou dois inspetores de qualidade. No entanto, acham normais as devoluções por falta de qualidade que, além de representar prejuízo financeiro em termos de reposições, consertos, impostos perdidos, fretes etc., sem falar no prejuízo difícil de figurar em números, na perda da imagem da marca e aborrecimento causado ao lojista.
Tenho muitos exemplos marcantes daquilo o que representa a qualidade ou a falta dela na produção do calçado. Quando comecei a dar assistência numa empresa francana, de grande porte, e fazia rotineira inspeção pelos padrões internacionais, o calçado rejeitado nesta inspeção era de 80 % em média. Três anos depois, quando algum dos chefes das esteiras tem dez por cento (Deus nos livre ter vinte por cento!) rejeitados fica aborrecido e envergonhado. Uma das inspetoras, recentemente, me confessou que quando me via entrando dava aquele frio na barriga, mas agora só fica com curiosidade se vai dar cem por cento aprovado!
O sistema de qualidade, hoje, abrange três áreas, a saber: estética, tecnológica e de segurança.
A estética dispensa comentários. Nada de pontas de linha, de manchas de cola ou sapato montado torto. Qualquer leigo é capaz de enxergar uma costura mal feita ou calçado sujo.
Controle tecnológico é mais exigente e sofisticado. Envolve o controle ou testes de materiais antes da entrada em produção e acompanhamento durante todo o processo produtivo. Exige controle constante de tempos de aplicação do halogênio, de colas, de temperaturas, de pressão das prensas e assim por diante. É um processo contínuo, onde uma hora de falha numa operação pode significar uma centena de pares que forçosamente irão criar problema daqui a algum tempo, em forma de devolução por defeito.
O controle de segurança é uma novidade, que até há pouco tempo não preocupava ninguém no Brasil. Nos Estados Unidos onde, por exemplo, as batalhas judiciais pelas indenizações milionárias são comuns, a segurança do produto é uma preocupação imensa. É fácil imaginar o que custaria a quebra de um saltinho Luiz XV, mal pregado, que ocasionaria uma fratura do tornozelo. O primeiro processo destes faria uma escola.
O controle de qualidade é um assunto sério sob todos os pontos de vista. Não se pode fazer economia num assunto de tanta relevância . Para se ter uma idéia o que representa em termos financeiros a economia de não ter dois inspetores custando R$ 1.500,00 por mês cada um numa fábrica que produz mil pares por dia ao preço de R$ 50,00 basta dizer que as duas pessoas, rapazes ou moças, custariam R$ 0,003 por par.
Há justificativa para uma economia destas? E ainda há gente que se pergunta: o que fazer para melhorar a situação da indústria de calçados.
Zdenek Pracuch