PROMOVER EXPORTAÇÕES ?
Leio com alguma incredulidade sobre um documento assinado pelos senhores presidente da Apex-Brasil, Maurício Borges e pelo vice-presidente da Abicalçados, Paulo Grings durante o Seminário Apex-Brasil: Exportar é Inovar em São Paulo.
Para o senhor Borges o setor calçadista retrata cada vez mais o cenário de desenvolvimento do país com a qualificação dos produtos e de processo técnico e criativo relacionado à sua concepção, elaboração e especificação. Para isso a assinatura deste convenio significa na opinião dele, “reforçar as ações de promoção comercial e de imagem que, agregadas à inteligência comercial e competitiva, obtém altos índices de inserção dos nossos produtos nos mercados internacionais”. Uma frase bela porém destituída de qualquer conteúdo prático.
Serão destinados R$ 13,8 milhões em 2012 para realização de ações de promoção comercial de imagem, de desenvolvimento do produto e de estrutura e gestão, em mercados estratégicos como China, Emirados Árabes Unidos, Itália, França e Rússia, Estados Unidos, Colômbia e África do Sul.
Não é um belo programa? Não é isto de que a indústria de calçados nacional precisava? Não nos faltava esta orientação para promover a imagem, desenvolvimento de produto, desenvolver estrutura e gestão? Não é um bofetão na cara de todos nós que trabalhavamos com a exportação, promovendo imagem e o produto brasileiro durante anos lá fora? E tudo isso será feito por meros R$ 13,8 milhões? Há séria suspeita de que mais uma vez o dinheiro suado do contribuinte será queimado na fogueira das vaidades.
Será um turismo com todas as mordomias pagas, montagens dos “stands” sem nenhuma concorrência, material impresso etc. etc. etc.. Exemplos não faltam como, por exemplo, a comitiva da Abicalçados que viajou há dois anos atrás para a Noruega . É de se louvar o bom gosto, porque Noruega merece ser visitada, com seus fjordes e o sol da meia-noite. Mas considerá-la como um mercado potencial para os nossos calçados? Com seus 4,9 milhões de habitantes, ou sejam, Campinas e Belo Horizonte juntos?
O mesmo pode ser dito sobre a proposição de visitar Emirados Árabes Unidos, com seus 6 milhões de habitantes! Os hotéis de Abu Dhabi merecem ser visitados, mas quantos compradores de calçados, no caso do calçado masculino existem? Menos de 3 milhões e ainda teremos de descontar a meninada.
Vender calçado feminino para França e Itália? Pois é de lá que os nossos estilistas trazem as suas idéias originais. Nós vamos copiar e vender às francesas e italianas aquilo de que já cansaram? O único país dos acima mencionados que poderia oferecer alguma coisa em termos de exportação de calçados, é a Rússia, mas lá existem condições muito peculiares (e perigosas) de comercialização. O que sobra da proposta da Apex com Abicalçados é Colômbia e África do Sul.
Não há necessidade de comentar sobre a Colômbia. E a África do Sul? Quem esteve lá recentemente, sabe que o país está inundado de calçado chinês e que todas as portas são abertas aos chineses, ainda como sinal de gratidão pelo apoio dado pelos chineses ao Nelson Mandela na luta dele contra o apartheid. Da lista dos países acima citada sobram os Estados Unidos.
Vamos promover lá mais o que? Brasil, como potência calçadista é mais do que conhecido e reconhecido. Vamos lá dizer o que? Que voltamos a ser competitivos, que o custo Brasil, devido a clarividência, providências e eficiência do governo baixou para menos da metade? Que o custo de mão-de-obra foi desonerado de todos os penduricalhos tipo 5 S ou INCRA? Que a tributação ficou bem mais favorável ao empreendedorismo? Que todas as reformas vencidas há anos foram postas em execução? E que, agora sim, seremos competitivos com os asiáticos?
Resumo de tudo isso é, que novamente serão queimados recursos em coisas vãs, para satisfazer egos e proporcionar vantagens a poucos escolhidos que têm acesso às verbas públicas. Os recursos que seriam necessários não no Ministério do Desenvolvimento mas no Ministério da Educação para criar escolas técnicas nos clusters calçadistas. Os cursos oferecidos pelo SENAI são insuficientes. O ensino deveria começar pela formação de professores especializados, para não perpetuar os conhecimentos obsoletos como é o caso da realidade atual. A tecnologia de produção de calçados atingiu o status de engenharia de precisão. Os conhecimentos básicos de química e física são indispensáveis caso queiramos ter um quadro de funcionários à altura dos nossos competidores.
Alguém pode alimentar a esperança de que as coisas vão mudar? Enquanto no caso do preenchimento dos cargos públicos o critério da filiação partidária vai prevalecer sobre a capacidade ou conhecimentos técnicos dos indicados, nada mudará. E vamos continuar perdendo terreno em todas as frentes, principalmente na exportação.
Zdenek Pracuch
23/04/12