PROFISSIONALISMO EM PAUTA
Em recente coluna o pedagogo e cientista Cláudio de Moura Castro, publicada na Veja edição 01.06.2011 sob o título de “O profissionalismo como religião”. Moura Castro analisa com a sua peculiar visão as falhas do nosso sistema educacional, vítima, ainda dos séculos de submissão aos senhores da situação.
Da análise surge um retrato confrontando a mentalidade européia de profissionais, orgulhosos dos seus ofícios, dos seus conhecimentos, com a nossa visão amadorística do problema. Como Moura Castro diz: “É uma pena que os sindicatos, herdeiros das corporações, pouco se ocupem hoje com a qualidade e virtuosismo. Se pagarmos com magnanimidade, o verdadeiro profissional executará a obra com perfeição. Se pagarmos miseravelmente, ele a executará com igual perfeição. É assim, ele só sabe fazer bem, pois incorporou a ideologia de perfeição. Não apenas não sabe fazer de qualquer jeito, mas sua felicidade se constrói na busca de perfeição.”
“Sociedades sem tradição de profissionalismo precisam de exércitos de tomadores de conta (que terminam por subtrair do que poderia ser pago a um profissional com sua própria fiscalização interior). Nelas, capricho é uma religião com poucos seguidores. Sai bem feito quando alguém espreita. Sai matado quando ninguém está olhando.”
Somente num ponto devo discordar de Moura Castro. É quando ele chama os sindicatos como herdeiros de corporações. Não é bem assim, Os sindicatos nasceram da luta de classes, junto com as idéias socialistas. Marx, Engels e Lênin foram a tríade de cujas filosofias e pregações os sindicatos nasceram e se nutriram.
As corporações nasceram bem antes da Idade Média e a função delas era zelar pela perpetuação dos conhecimentos, pela profissionalização exercida pela constante vigilância sobre o comportamento tanto profissional como pessoal dos seus membros. Ser admitido como membro de uma corporação equivalia a uma graduação nos dias de hoje. Os aprendizes eram submetidos a exames, bastante rigorosos, passavam a categoria de ajudantes, que tinham por obrigação estagiar por alguns anos em cidades ou países vizinhos para adquirir mais conhecimentos e só depois podiam tornar-se membros das corporações.
Com a industrialização e conseqüente divisão do processo produtivo em operações individuais, estas exigências iam definhando, se simplificando e a própria industrialização contribuiu para o esvaziamento das corporações e da sua importância na vida economica das cidades e de estados.
Entrei com quatorze anos na Escola Bata de Trabalho na ex-Tchecoslováquia, onde o sistema educacional exigia que metade do dia estivesse dedicado aos estudos na escola e a outra metade ao ensino prático de operações na indústria de calçados. O fundador da empresa Tomás Bata era fanático pela tradição sapateira (“Somos sapateiros – quem é mais?”) e exigia de nos, que embora estudássemos no ensino superior, hoje a escola se chama Universidade Tomás Bata, que nos formássemos sapateiros manuais e nos submetêssemos ao exame da corporação dos sapateiros!
Assim, três meses antes da graduação, entravamos para um curso dirigido por velhos sapateiros artesãos e apreendíamos a fazer o calçado com as próprias mãos do mesmo modo, como o calçado foi feito através de séculos e milênios. E o resultado, um par feito por cada um de nos, era apresentado pessoalmente, para a junta dos sapateiros da corporação, examinado e avaliado e, sendo aprovado, recebiamos o Título do Ofício que nos autorizava a abrir nosso próprio negócio, de sapateiro. Recebi o meu título de ofício em 17.12.1945.
É pena, que com a ascensão do comunismo na ex-Tchecoslováquia as corporações, como resíduo da “burguesia” foram dissolvidas e uma tradição milenar foi abandonada. Mas nos demais países ocidentais, que mantiveram a tradição democrática, principalmente na Alemanha, Holanda e Bélgica as corporações continuam vivas e ativas, mais, digamos como folclore do que com efeitos práticos, mas a tradição de qualidade e de orgulho profissional de trabalho bem feito continua. Como o bem observou Moura Castro numa visita a um mecânico e a um tapeceiro franceses.
Parece, que o “profissionalismo como religião” desapareceu entre nos. Com o infeliz Estatuto de Criança, que permite aos adolescentes de 14 anos matar impunemente, mas proíbe-os de aprender um ofício, o que há de se fazer? Justamente na idade onde se forma o caráter de uma pessoa, esta pessoa fica a mercê de más companhias, a toa, sem ter com que se ocupar, sem aprender nada, sem edificar uma base para a vida.
Acompanho o trabalho do SENAI com simpatia e com bastante pena. Posso falar com algum conhecimento de causa sobre a indústria de calçados, hoje tão complexa, onde os conhecimentos de física, de química, de matemática, de informática e de economia são essenciais e devem fazer parte do currículo de qualquer curso profissionalizante que pretende formar futuros líderes. Dedicando ensino destas matérias especificamente aos problemas que serão encontrados na vida profissional, o que temos? Cursos de três meses, cursos de 80 horas e assim por diante. E os alunos saem felizes com diploma, pensando que se formaram em alguma especialidade quando, na verdade, mal passaram pelo portão de acesso aos conhecimentos.
Eis a última linha do ensaio do Claudio de Moura Castro: “Em tempo: amadores não formam profissionais.” – E agora? Com China e Índia no nosso encalce?
Zdenek Pracuch
25/07/11