PRÉ-SAL E CALÇADOS
O país vive, pelo menos assim parece, uma euforia do “pré-sal”. Otimismo oficial, um bocado exagerado, que leva em conta só os benefícios, ao ponto de já decorrer uma briga nos bastidores sobre a divisão dos possíveis lucros. Não estão sendo levadas em conta as imensas dificuldades técnicas, com uma tecnologia, que nem sequer foi plenamente desenvolvida e testada em algum lugar do planeta e cujas dificuldades os técnicos nem conseguem visualizar na sua totalidade.
No meio desta euforia passou, praticamente, sem ser notada a notícia sobre a descoberta de uma outra reserva de petróleo “pré-sal”, desta vez no Golfo do México, pela gigante British Petroleum. Reserva esta com estimativa superior a da brasileira. O que de uma certa maneira tirou o glamour da descoberta brasileira e sob ponto de vista técnico e financeiro, representa uma ameaça direta ao projeto brasileiro. Está aí a “inexplicável” baixa das ações da Petrobrás, no dia seguinte ao lançamento do “pré-sal”.
Por que ameaça direta? Porque até hoje não existe uma estimativa, nem aproximada, do custo da exploração e de investimento necessário para tirar o petróleo de sete quilometros de profundidade. Mas, todos os experts financeiros estão unânimes num ponto: será que haverá o volume de capital disponível, no mundo, para tanto? E agora ainda com a entrada da BP no jogo, aonde os especuladores preferirão investir: numa empresa privada, transparente, controlada pelos acionistas ou numa estatal, dominada pelos políticos, num país que ainda está aprendendo os primeiros passos para viver democráticamente? Regido pelas Leis que ora pegam, ora não pegam? Regido pelas Medidas Provisórias? O capital internacional é arrisco demais!
Bem, até agora não foi retirado, em processo de extração continua, das profundezas do oceano nenhum barril de petróleo e nos próximos três ou cinco anos, dificilmente o será. Com que, então, os sapateiros deveriam se preocupar? Com o preço da gasolina? A história nos ensinou, que por mais que o petróleo é nosso, nunca baixará de preço, mas nem pela culpa exclusiva da “nossa” Petrobrás, mas pela voracidade do governo, que nos cobra, já na bomba 50% do preço a título de impostos. O calçado, coitadinho, só é onerado no decorrer do processo produtivo em 39,6 %.
A preocupação dos sapateiros deve ser a médio e longo prazo. Tenho que fazer jus ao meu renome de pessimista e catastrofista e por isso estou avisando com três a cinco anos de antecedência, o que os observadores econômicos internacionais já prevém neste ocaso do ano 2009. Seja qual for a regulamentação que o governo vai conseguir do Congresso, será inevitável um enorme ingresso de capital estrangeiro no país e a paridade do real com dólar será inevitável. E as conseqüências disso?
Ao mesmo tempo, que isso impossibilitará de vez a exportação de manufaturados em competição direta com Oriente (calçados, confecções, móveis), este ingresso de divisas e a paridade conseqüente barateará importações ao ponto de impossibilitar qualquer competição das manufaturas nacionais com os importados orientais. Pode até ser, que o governo consiga alguma proteção via taxas alfandegárias contra Índia, Bangladesh, Vietnam ou outros menores, mas com medo de irritar o nosso maior comprador de minérios, de soja e de alimentos, a China, esta dominará o mercado brasileiro, como já o faz nos Estados Unidos, na Europa e na África.
O que o industrial de calçados pode fazer contra esta nova ameaça? De prático, diretamente, nada. Atenção, eu disse diretamente nada. Mas pode muito bem definir a estratégia para se preparar às conseqüências do “pré-sal” que são facilmente delineáveis e definidas.
Em primeiro lugar, pesar muito bem os investimentos e investir somente o necessário e mesmo assim com muita cautela. Quais são os campos onde o investimento será necessário? Pesquisa de mercado, criação de linhas exclusivas para atender nichos específicos do mercado e adoção de tecnologias inovadoras.
Em segundo lugar, perder a ambição de ser o grande produtor de calçados, o maior fabricante da região, quiçá do país. Na vida econômica de hoje, no ramo de calçados, não há mais lugar para esta vaidade. O eixo de gravidade se deslocou da fabricação para comercialização. Organizar uma cadeia de lojas próprias ou franqueadas é a saída para as fábricas, as que possuem bastante capital próprio, para empreender esta mudança nos objetivos da empresa. Uma cadeia de trinta a sessenta lojas é uma apólice de seguro de vida.
Ou seja, há saídas, mas todas elas se baseiam principalmente na mudança de mentalidade. E a experiência ensina, que esta parte é a mais difícil e, em muitos casos se torna impossível. Se até hoje deu certo, porque não vai funcionar mais? A melhor maneira de encerrar um diálogo assim é calar.
Muito bem. Temos o “pré-sal” e as portas do paraíso se abriram para a nação, menos para os produtores de calçados e outros manufaturados. O declínio da indústria calçadista era um fenômeno esperado e justificado pela evolução e pelo darwinismo imperando em todos os ramos industriais. Mas, que logo o “pré-sal” poderia apressar este processo, acredito, que ninguém esperava.
Zdenek Pracuch