PRECO DA GLOBALIZAÇÃO

Em uma das ultimas edições de domingo do “Comércio da Franca” foi publicada uma carta do leitor de Franca, senhor Samuel Pires, que levantou a polemica sobre duas matérias publicadas na minha coluna semanal sobre a integração entre indústrias do Brasil e do Paraguai. É um fato consumado, é parte da evolução da vida econômica e também é uma decorrência da própria economia, de procurar sobreviver de qualquer modo, quando as condições se tornam adversas.

Concordo plenamente com Samuel, que a conta no final será paga pelos operários que dependem dos empregos e independentemente do esforço deles, as forças que regem os mercados e por tabela a economia global não permitem nenhuma misericórdia. É puro  darwinismo – só os mais aptos e resistentes vão sobreviver.

Todas as perguntas formuladas por ele, sob ponto de vista de um funcionário de uma empresa de calçados, cuja sobrevivência está ameaçada, são corretas e procedem. Mas, olhando friamente e nem tão longe para trás, Brasil não fez o mesmo papel com os tradicionais e bons produtores de calçados, que dominavam mercado mundial e exportavam enormes volumes de calçados. Eram Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Holanda e ultimamente Itália, Portugal e Espanha e nesta ordem estão definhando.

Ademais, interprete como quiser, mas no “O Estado de São Paulo”, de 1 de agosto de 2010, na página B 2, tem declaração do senhor Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente do Brasil: “Estamos abrindo novos horizontes para a economia paraguaia lançando bases sólidas para sua industrialização.” E agora Samuel?

Já escrevi nesta coluna a lição que me deu John, o Grego, na fábrica do mr. Katz em Marlboro, Massachussets, quando comentei que as fábricas americanas mais parecem asilos de velhos. “Nossa indústria perdeu o charme para os jovens” foi a resposta dele mas, talvez, nem ele sabia, que os salários que estavam acostumados a levar para casa não eram compatíveis com realidade da mão-de-obra farta e barata no âmbito global.

Mas não é só a mão-de-obra que encarece o produto brasileiro. Olhem o lado do empresário: os economistas estão cansados de proclamar que os nossos juros são os mais altos do mundo. Que o capital especulativo aporta todo aqui, para se beneficiar desta benesse. O presidente da República, há uns dias atrás proclamou orgulhoso que os nossos impostos são iguais aos dos países desenvolvidos, que o Estado deve ser fortalecido e este é o papel da arrecadação. Mas esqueceu de dizer o que os países desenvolvidos oferecem em troca dos impostos altos. O nosso governo nos oferece a máquina burocrática do tempo colonial, inchada, inoperante, cheia de apadrinhados, que chefiam Agências sobre as quais não tem a mínima noção sobre o que representam. Exemplo? A nova diretoria da Anac – Agência que regula aviação civil.

Morei seis anos na Suécia, campeã mundial de impostos altos. Mas comparar o sistema educacional, de saúde ou de segurança com o nosso – nem como piada. E o custo Brasil? Portos congestionados, estradas em péssimo estado (com exceção de São Paulo, mas com pedágios elevados), falta de ferrovias, tributação caótica, insegurança regulatória, legislação trabalhista anacrônica, educação profissionalizante deficiente  – tudo isso encarece os nossos produtos. Então para onde vão os impostos? Bem, todo mundo sabe – mas cala te boca.

Meu caro Samuel Pires dá para estranhar que o empresário se vê tentado salvar a indústria dele? Que vê ameaçado o resultado do trabalho dele, as vezes de gerações! Que procura uma saída de situação em que não pode interferir? Porque os gaúchos já estão firmemente instalados na China? Logo gaúchos que têm um poder de fogo respeitável em Brasília? Se eles jogaram a toalha e foram embora é porque realisticamente avaliaram a situação e agiram antes que fosse tarde demais. E são empresas com peso de uma Azaléia ou Dilly entre outros.

Do ponto de vista de trabalhador é louvável a iniciativa de introduzir 40 horas semanais de trabalho com pagamento integral das 46. Lindo, mas o custo? Quem vai pagar por isso? É mais do que justo receber um bônus para sair de férias, mas o custo? Quem pagará isso? Consumidor? Até quando? Seremos competitivos no mercado global? Até quando?

No pagamento do salário do trabalhador temos o confisco do imposto sindical, contribuição para INSS, tudo compulsório e cabe a pergunta: o que se recebe em troca? Tenho todo direito, direito meu pessoal, de me sentir roubado. Contribui durante 35 anos na base de 15 a 20 salários mínimos. Fui aposentado com 5,75 % salários mínimos e atualmente recebo o valor equivalente a 3! Reclamar a quem? Devo agradecer a Deus a saúde que me deu e não precisar enfrentar as filas do atendimento médico aos aposentados ou do SUS.

Não há como censurar alguém, se quer legalmente escapar desta espoliação e continuar na vida empresarial ativa, ficando competitivo com o resto do mundo o que, infelizmente, não é mais possível na indústria de calçados no Brasil. Não tenho dados sobre as outras indústrias, mas as estatísticas falam por si mesmo. Há dez anos atrás exportávamos mais de 50 %  em manufaturados. Em 2009 este valor foi de 7 %. Brasil  
está se tornando país exportador de matéria prima, decommodities – minérios, soja, grãos, suco de laranja, carne etc.

Não gosto de ser profeta de desgraças mas, infelizmente, nos últimos vinte e cinco anos tenho acertado nas minhas previsões.  Cumpro a minha obrigação de alertar aqueles que querem ser alertados e não tem como acompanhar o que acontece em redor, sufocados que estão com suas rotinas diárias. E ao leitor Samuel Pires, meu muito obrigado, por me dar o motivo de abrir um pouquinho mais o debate.

Zdenek Pracuch