PROBLEMA ESTÁ NO PESPONTO?

Com toda certeza, não está. O problema está no gerenciamento e na organização do pesponto. Porque? Porque o pesponto nunca foi devidamente compreendido pelos donos das empresas. Quem sabe, existe um pouco de desprezo sobre um trabalho, que queiram ou não é sempre olhado como trabalho de mulher embora nos países árabes temos fábricas onde mulher não entra.

Seja lá como for, o pesponto é considerado problemático na grande maioria das nossas empresas e, como na opinião de muitos donos de empresa, evitar o problema fugindo dele é a melhor política, houve proliferação de bancas de pesponto.

Com resultado, na maior parte desastroso, pelos desperdícios, falta de qualidade e, recentemente, por problemas trabalhistas. Muita gente está pagando caro pela ilusão de ter passado o problema para terceiros.

No entanto, o pesponto, embora possa parecer complicado e confuso, não passa de mais uma simples etapa na produção de calçados. Desde que alguns conceitos básicos sejam obedecidos, nada impede que a fábrica tenha um pesponto produtivo e lucrativo. Mas estes conceitos básicos devem ser obedecidos.

Modelagem: O pesponto começa na modelagem. O modelista deve analisar a criação dele sob ponto de vista de realização, principalmente no pesponto. Não dá para acreditar o que certos copiadores de modelos inventam e impingem aos coitados pespontadores para realizar. O dono da fábrica deveria acompanhar a confecção do par piloto para se conscientizar sobre o que terá que produzir, e o que será o custo desta falta de visão ou de técnica do copiador do modelo.

Processo produtivo: Fábricas asiáticas ou européias, quando ainda as havia, não usavam cola no pesponto ou, quando a usavam, era com extrema parcimônia. No Brasil temos pespontos, onde se cola mais que costura! Numa grande fábrica em Franca tem três coladeiras para duas máquinas de costura! É natural, que o custo de mão-de-obra sobe ás alturas, atraso na circulação da mercadoria em produção é óbvio e a sujeira da cola, que depois deve ser tirada é o resultado do processo produtivo. Quando é que vamos parar de colar?

Equipamento adequado: Em quase todas as fábricas de Santa Catarina para o Norte do país, temos somente máquinas de coluna, caras, de manutenção e manuseio difícil. Quando discuti em Nova Serrana sobre isso com o representante de uma fábrica de máquinas de costura de Franca, ouvi dele - onde já se viu costurar calçado na máquina plana! - Se ele tivesse possibilidade de visitar fábricas de calçados na Coréia, China, Índia ou na Europa, poderia verificar que, metade ou mais das máquinas são planas!

Quantas fábricas possuem máquinas programáveis? Máquinas que executam costuras complicadas com velocidade incrível e a única habilidade que se exige da costureira é saber prender o serviço para dentro do gabarito.

Ergonometria: Alguém vai acreditar que encontrei uma fábrica onde as costureiras estavam sentadas em latas vazias de cola, com um cobertor dobrado em cima? Como deve se sentir uma costureira sentada nove horas numa posição desconfortável? Cansaço, que reflete-se na qualidade e na produtividade é um resultado natural. – Quantas fábricas possuem cadeiras reguláveis, com apoio lombar? Isto também faz parte da produtividade.

Organização do trabalho: Dá pena ver pessoas arrastando velhas caixas de embalagem de papelão corrugado, contendo 20 até 50 pares de cortes a serem costurados. Ou, procurando num monte de caixas ou de caçambas o serviço a executar, perdendo tempo precioso, com a máquina de costura parada, tudo por causa de falta do planejamento e de organização do fluxo de material. – Máquina de costura parada não gera produção.

Há muita coisa que pode e deve ser melhorada nos nossos pespontos. As observações acima, são um apanhado que me ocorreu agora, na hora que escrevo esta coluna. Cada item destes pode ser desdobrado em um sem número de itens, todos eles atuais e fazendo falta nas nossas fábricas.

Acreditam que tem fábricas no mundo, que usam máquina de encher as canelinhas? Para evitar que as pespontadeiras não percam tempo, onde uma menina recolhe canelinhas vazias e passa entregando as cheias para cada máquina. A racionalização chega a este ponto. – Teremos condições de competir com pessoal assim estruturado?

Zdenek Pracuch