TEMPO PERDIDO ?
Acompanho há algum tempo o crescimento da cadeia das lojas DSW (Designer Shoe Warehouse) nos Estados Unidos. Hoje a cadeia conta com 321 lojas próprias e 341 pontos de franquia. Porque estou interessado neste assunto? A DSW projeta abrir neste ano mais 51 lojas ou pontos de venda. E, principalmente, porque está inovando o atendimento dos clientes, mudando a técnica de reposição de estoques de loja e encurtando o caminho entre produtor e cliente pelo atendimento via loja, diretamente da fábrica à casa do cliente.
Como sou cria da Bata Shoe Organisation, sempre acreditava naquilo o que Bata pratica há 90 anos com sucesso absoluto. Ou seja, encurtar o caminho entre o produtor e o consumidor final através de lojas próprias e, ultimamente, com parcerias nas franquias, tendo hoje cerca de 10.000 pontos de venda pelo mundo, com trânsito diário (!) de dois milhões de pessoas.
Não estou sonhando com alguma utopia. Quando comecei a trabalhar em Franca, o diretor presidente da empresa definiu que vai seguir o “padrão” Bata não somente na produção mas também na distribuição e comercialização. Resultado? Quando após cinco anos saí da empresa por motivos estritamente pessoais, a empresa tinha 22 lojas em pleno funcionamento.
Quando voltei nos fins dos anos noventa, quase trinta anos após, o mesmo presidente da empresa me disse, com alguma tristeza, que chegou a ter setenta lojas próprias, mas devido a problemas familiares na direção, restavam somente umas dez em shoppings.
O título desta coluna fala em tempo perdido. E foi perdido mesmo. Os tempos áureos da indústria de calçados brasileira estão no passado. A sobrevivência das indústrias daí em diante será cada vez mais trabalhosa. Os erros de estratégias, erros no lançamento dos produtos, erros na formação de preços de venda que o mercado perdoava no passado, hoje podem significar a sentença de morte.
Será que ninguém viu esta evolução, será que ninguém parou para analisar o presente para projetar o futuro? Não é fácil ser um Nostradamus, mas há certos aspectos que influenciam a nossa vida, a nossa vida econômica, fáceis de serem deduzidos, projetados para o futuro e nos antecipar aos acontecimentos. Por que as previsões do Nouriel Roubini se realizam?
Não estou pregando utopias. Temos empresas brasileiras, que se anteciparam à evolução do mercado e hoje, no meio da crise, estão expandindo suas atividades num ritmo de crescimento invejável? Havaianas, hoje administra 249 lojas. Hering por sua vez está com 515 lojas! A Hope, do mesmo segmento têxtil já passou de uma centena e o que dizer do Boticário?
O fato é, que podemos acompanhar o crescimento das redes de lojas de calçados, que abrem dezenas de filiais, com capital de quem? É lógico, com capital das fábricas! Na hora de comprar espremem o produtor ao máximo, exigindo prazos cada vez maiores. Na hora de colocar “mark-up” temos hoje lojas que colocam coeficiente 2,4 ! É lógico, que se comprei com prazo de 210 dias, um artigo vendável, giro o capital que não empatei até duas vezes! Sem juros, e sem despesas! Desta maneira é fácil criar uma cadeia de lojas num estalo.
A época em que as empresas calçadistas eram capitalizadas e podiam ter um plano, facilmente exequível de possuir sua própria cadeia de lojas, infelizmente, já passou. Hoje não há capital disponível para tanto. Mas, há certas técnicas, que podem facilitar a abertura de lojas próprias, que podem ser o sustentáculo da empresa, contra crises, contra importados e contra a concorrência desleal.
É óbvio, que a empresa-mãe deve ser organizada, econômica, racional e com a gestão do primeiro mundo condizente com terceiro milênio. As lojas podem ser altamente competitivas, porque o lucro já ficou na empresa produtora. Mantendo o estoque num nível baixíssimo e fazendo a reposição da venda, até diariamente, via Sedex, um “mark-up”, digamos de 0,5 será altamente competitivo. Se o produtor do calçado masculino se associar com um produtor do calçado feminino, seguindo a mesma filosofia, terão preços imbatíveis.
E se ainda adotar a técnica DSW, que oferece venda pelos catálogos nas lojas, com entrega garantida pelo parceiro produtor em 48 horas na casa do cliente; sem ter um estoque excessivo, contando com parceiros confiáveis, será difícil competir com uma organização destas.
Por favor, não venham dizer que isto é uma utopia. Este sistema já funcionou em Franca, com sucesso absoluto na década dos anos sessenta e setenta. Não havia e-mails ou comunicação direta via computador entre caixa da loja e depto. de vendas na fábrica, não havia Sedex, ligações telefônicas eram tão confiáveis quanto sinais de fumaça dos índios e, no entanto, o sistema funcionou. - Por que o sistema fracassou? Porque a diretoria das lojas não entendeu a filosofia do negócio. Achou que a loja tinha que ter calçado de mulher, de crianças, cintos e carteiras e a loja que devia ser loja de giro do estoque rápido, sem pontas de numeração, de loja da fábrica virou uma loja de calçados como as temos 30.000 no Brasil. Competitividade e preços convidativos foram para o espaço.
Não estou contando vantagens. Exemplo: na cidade de Uberlândia existia um lojista “exclusivo” que vendia 600 pares por ano. No primeiro mês a loja da fábrica vendeu 2.400 pares. Dentro de seis meses abrimos a segunda loja. Em Goiânia abrimos três lojas! Há uma infinidade de detalhes para o bom funcionamento. Mas vencemos tudo isso há 50 anos atrás, sem computadores e sem comunicações. Por que não poderia funcionar hoje? – Quanto tempo foi perdido! Dá para recuperar? Resposta está nas mãos dos empresários empreendedores.
Zdenek Pracuch
18/03/13