EMBRAER, OUTRA VEZ
Há algum tempo atrás, escrevi nesta coluna (Aviões e calçados, leia aqui) que o sucesso da Embraer tinha causas bem justificáveis e que a indústria de calçados, bem que poderia aprender alguma coisa com os fabricantes de aviões. Voltei ao assunto, outro dia, em conversa com um industrial de calçados, citando o caso da Embraer como modelo para um método de gestão condizente com o terceiro milênio.
“A Embraer é Embraer e quem sou eu?” foi o argumento dele. Minha resposta foi no sentido de que Embraer é uma empresa e ele também representa uma empresa. A diferença está no porte dos dois. Mas os princípios de uma gestão moderna se aplicam sem distinção nos dois casos. E quais são estes princípios?
O primeiro deles é inovação. Nada no Universo é estático. Até nos, como pessoas, seres humanos, estamos em constante mudança e dependendo do caso de cada um, em constante evolução. Este princípio se aplica a cada modalidade da vida e de atividade.
Segundo princípio é evitar os desperdícios. Desperdícios de tudo – tempo, energia, materiais e até idéias. De tanto ver e aceitar passivamente os desperdícios, estes se tornam parte da paisagem ao ponto de não os vermos mais. Foi um destes desperdícios, invisíveis, mas pesados, que chamou a atenção dos executivos da Embraer e foi rapidamente modificado. Desperdício representado pelo giro excessivo de produtos imobilizados no processo produtivo.
De vinte e dois dias que eram necessários para montar um avião de grande porte este tempo foi reduzido para sete dias. Um jato da linha 170 ou 190 pode ter até 65.000 peças. Imaginem o volume de capital imobilizado pela operação demorada! – Como conseqüência desta mudança houve economia de 800 milhões de dólares em comparação com 2008. Eu sei que uma fábrica de calçados não opera com estoques deste porte, mas até hoje nenhum fabricante de calçados me conseguiu explicar porque tem estoque de matéria prima, de insumos e de embalagens em dobro comparado com o volume do faturamento mensal!
A produtividade na Embraer é cobrada com rigor, mas também é compensada com reconhecimento. As equipes são até distinguidas com medalhas, caso o desempenho justifique ouro, prata ou bronze. Pelo visto Olimpíadas fazem escola.
Uma idéia recém introduzida pode ser aplicada com sucesso na indústria de calçados. Em muitas fábricas o departamento de vendas aceita mudanças de cores, de materiais, de cores de linhas de costura etc., que muitas vezes não são observadas pela produção causando problemas de qualidade e de entrega. Para construir um avião podem ser necessários até 60.000 desenhos. Imaginem a montanha de papeis a serem consultados e conferidos durante o processo de montagem. A Embraer está substituindo esta papelada toda por tablets de fácil consulta e contendo todos os dados, o que irá reduzir significativamente os erros. Porque não colocarmos tablet na mão de cada supervisor?
A rapidez da produção com as economias que isto traz, com supervisão facilitada, com um controle de qualidade instantâneo e eficiente, na hora, a indústria de calçados só pode ganhar. Já levei muitos empresários para conhecer uma fábrica em Nova Serrana, que produz calçados em oitenta minutos a partir das peças cortadas. Mas, cadê a coragem de implantar o sistema na própria fábrica? Saem encantados, mas na hora de introduzir o conceito na própria indústria, param ao primeiro obstáculo enfrentado.
Acima disse que o primeiro princípio da Embraer se chama inovação. Faz parte da natureza humana em qualquer situação, que sair da zona do conforto representa um sacrifício. Mais ainda quando se trata de introduzir alguma coisa nova, onde não há a experiência do passado. Mas, hoje em dia, quem quiser dirigir a empresa pelo retrovisor, com certeza, vai acabar trombando.
Inovar e adotar métodos de gestão condizentes com a época atual é receita para sobrevivência, mas também para crescimento. De 1995 até hoje a Embraer cresceu 20 vezes em vendas. Competindo com o que de mais moderno e eficiente existisse no mundo. Hoje é a terceira maior fabricante de aviões do mundo, com a concorrência violenta da Rússia, China e Japão. Não poderia servir de modelo para a indústria de calçados? Pelo menos nos tópicos de inovação e de gestão?
Zdenek Pracuch
27/08/12