PUXÃO DE ORELHAS

Freqüentemente recebo e ouço comentário de leitores, alheios ao ramo empresarial, tais como comerciantes, médicos, advogados ou funcionários, que gostaram de puxão de orelhas que estive dando aos empresários calçadistas.

Fico bastante frustrado, quando é dada esta interpretação aos conselhos, experiências e opiniões que quero compartilhar com o empresariado do  calçado. Dediquei  minha vida a esta atividade e, embora já com idade bastante avançada, acredito que tenho por obrigação dividir, pelo menos, uma parte de minha experiência em favor daqueles a quem não foi dado viver uma vida profissionalmente tão rica.

Olhando para trás não tenho como não agradecer a Deus pela vida que me foi proporcionada no sentido profissional. Entrei com catorze anos na, então, escola que formava os futuros executivos da Bata Shoe Organization e nunca sai do ramo calçadista para exercer outras atividades. Fui distinguido pela possibilidade de trabalhar diretamente com dr. Jan Antonín Bata, irmão do fundador Tomás Bata e depois com o filho do Tomás Bata, Thomas Bata Jr.

Ocupei todos os cargos possíveis dentro da indústria e quando já aposentado, fui dirigir o departamento de calçados de uma trading sueca em Estocolmo onde me foi dada a oportunidade de viajar pelo mundo inteiro, conhecendo as mais variadas indústrias, métodos de trabalho, mesclados com tradições culturais diferentes e diversos níveis de desenvolvimento. Como bônus guardei amizades e troca de informações privilegiadas, que me ajudam a fazer previsões e me antecipar ao desenvolvimento ou declínio da indústria conforme a evolução da economia global.

Não é que fiz turismo. Mas trabalhei ativamente com as fábricas do México, Chile, Argentina, Finlândia, Estônia, Suécia, ex-Yugoslávia, Áustria, Portugal, Espanha, Itália, Bangladesh, Coréia, China, Índia, Moçambique, África do Sul no sentido de melhorar a qualidade, cálculo de preços, encurtar prazos de entrega etc., o cotidiano das indústrias. Criei duas fábricas de calçados na Rússia. Ensinei bastante mas, reconheço, que apreendi muito mais.

Desta posição privilegiada, com informações tambem privilegiadas, com conhecimento de várias línguas, com acompanhamento diário através das revistas especializadas, internet e análise dos acontecimentos globais, sempre com vistas ao setor coureiro-calçadista, acho, que tenho obrigação de orientar e avisar ou advertir os calçadistas, colegas meus, sobre os rumos da economia, para tomarem medidas corretivas ou defensivas enquanto há tempo.

Ou seja, não se trata de puxão de orelhas, embora possa ser interpretado assim, mas muito mais de um grito de alerta e uma indicação do rumo a seguir doravante, com base nas informações e experiência daqueles, que já passaram ou estão passando pela agonia de mudanças bruscas, no modo de agir e de pensar, impostas pelo terceiro milênio.

Conheço o cotidiano, a rotina de trabalho dos empresários. Afogados nos problemas diários, na obrigação de tomar decisões sobre os mínimos detalhes do funcionamento das suas empresas, devido a falta de pessoas subordinadas que deveriam assumir uma boa parte destas obrigações, seja por falta na arte de delegar, ou ainda por falta de treinamento adequado – o empresário, simplesmente, não tem nem tempo nem a cabeça fria o suficiente, para analisar os acontecimentos, as tendências e, com base nesta análise, planejar o futuro e a estratégia de sobrevivência.

Com o que vemos na Itália, na Espanha, em Portugal e o que já vimos na Alemanha, Holanda, Reino Unido etc. podemos prever com relativa segurança qual é o rumo e quais as defesas para a sobrevivência da indústria nacional. Boa parte dela, sem dúvida, sobreviverá à estas mudanças dramáticas a que estamos condenados. Mas, qual é a estratégia mais adequada a adotar? O que os outros fazem ou fizeram para sair incólumes destas mudanças?

Repito que não se trata de puxão de orelhas. Trata-se antes de um grito para acordar os acomodados, aqueles que estão convencidos que “este filme já passou várias vezes”. Só que desta vez o enredo é outro e o Happy End também pertence ao passado. Exatamente como nos demonstram os países acima citados.

Ainda há tempo para se adaptar. Mas as mudanças devem abranger a estrutura completa. Desde a criação do produto até a comercialização. Isto exigirá uma enorme flexibilidade, principalmente mental e uma enorme dose de planejamento. Mas, atenção, para o que disse o Carlos Ghosn, o brasileiro-libanês, presidente da Nissan e Renault: “a vida é aquilo o que acontece depois de tudo ter sido minuciosamente planejado!”

Zdenek Pracuch
08/10/12