ORDEM E PROGRESSO
A televisão e a imprensa estão repletas de exaltação do exercício da cidadania, do espírito cívico e do amor dos brasileiros pela Pátria. Lindo. Só que na prática, parece que esta exaltação não tem fundamento. A despeito do ufanismo oficial, dos pronunciamentos proféticos, do exmo. senhor ministro da Fazenda, que nunca se cumprem, a prática na realidade parece bem outra.
Uma entidade que se denomina CNM – Comitê Nacional de Mobilização, que congrega servidores da Receita Federal e aduaneiros publicou um boletim, que transcrevo na íntegra:
Operação “Desembaraço Zero”
A Plenária Nacional de 16 e 17/10/2012 aprovou proposta de intensificação da operação padrão da zona primária com desembaraço zero em todas as unidades aduaneiras do país nas semanas de 22 a 26 de Outubro, 19 a 23 de Novembro e de 10 a 14 de Dezembro. A mobilização da zona primária nos demais períodos deve ser mantida com operação padrão nos moldes atuais, conforme orientação do Comando Nacional de Mobilização – CNM. O CNM conclama os colegas aduaneiros a participarem efetivamente da operação “Desembaraço zero” já na primeira semana entre os dias 22 a 26/10.
Meu amigo Júlio Schreck, dono da empresa Gateway Com. Imp. Exp. Ltda., um dos pioneiros dos agentes de exportação de calçados, com 25 anos de atividade e um dos poucos que ainda está com sucesso na ativa, a despeito de todas as adversidades que o setor calçadista enfrenta, distribuiu o seguinte e-mail aos seus colegas, os interessados e os atingidos pela medida antipatriótica que, com devida vênia transcrevo e da minha parte endosso ipsis verbis:
Senhores,
Acabei de receber este comunicado, Operação "Desembaraço Zero", estou cada vez mais entristecido, ficaremos imobilizados assistindo ao golpe final nas nossas exportações. É o fim da picada, ficar a mercê deste tipo de situação, depois de tantos esforços para trazer negócios para o Brasil, vamos acabar morrendo na praia. A sensação é de impotência, quem já foi assaltado sabe do que estou falando.
Precisa haver um sistema que remunere esses profissionais.de acordo, assim evitaremos mais desastres deste tipo, e situações de corrupção que irão acontecer, e ficaremos reféns novamente. As datas que decidem parar não importam, pois sem estrutura de acordo, as cargas se acumularão e vai ser aquela bola de neve que todos conhecemos.
São nestes momentos que os empresários bem sucedidos, decidem que chegou o momento de parar. Dane-se o orgulho de ser um empreendedor. Danem-se os colaboradores que lutam diariamente conosco. Não temos representatividade, ou alguém com pulso para tomar uma atitude e acabar com esse sofrimento e descaso.
Os embarques (cargas e documentos) irão se amontoar nos portos e aeroportos, tudo vai entrar no famoso canal vermelho e nós, empresários, pagaremos a conta com a perda de negócios e de performance. Os nossos clientes não conseguem entender isso. Ao invés de tentar entender, sem dúvida, irão abastecer-se em outros mercados.
Estávamos com uma oportunidade incrível nesta estação, de poder recuperar uma parte do que perdemos no passado pela elevada valorização da nossa moeda, que agora está mais perto da realidade. Mas, lamentavelmente, vamos deixar escapar essa oportunidade pelas nossas mãos.
Vamos rezar para que um gesto iluminado detenha mais esse movimento de estancar de vez a nossa economia. Precisamos exportar e de importar também. Nosso mercado interno não ficará nesta euforia para sempre, alguns sinais já começaram a aparecer.
Abraços a todos e vamos para frente, mas até quando?
ass. Júlio Schreck.
Caro amigo Júlio, endosso este seu grito de alerta ou desabafo, como queira, mas para manter o meu prestígio de “catastrofista”, sinceramente não vejo nada no horizonte que poderia trazer esperança de uma mudança substancial.
Num governo de companheiros, formados na escola do sindicalismo dos mais retrógados, orientados por uma ideologia esquerdista ultrapassada no mundo inteiro e arquivada sem choro nem vela até na antiga pátria do socialismo – a União Soviética – o que podemos esperar? De quem? Das entidades representativas que representam a si mesmas e tem medo de ficar mal olhadas pelos donos do poder? Dos ministros-consultores da área cuja ficha não está nada limpa?
Não se trata da nossa situação pessoal, da sua Júlio, nem da minha, mas estamos defendendo o pão dos milhares de peões do chão da fábrica, cheios de filhos, de conta de luz e do aluguel atrasado, cheios de carnês para pagar, induzidos ao consumo irresponsável, por este mesmo governo – estes é que vão pagar a conta.
Fazer o quê? Vale o seu alerta-desabafo, Júlio, que endosso plenamente e dou abrigo na minha coluna. Pelo menos, ainda temos a liberdade de expressão. Embora não falte gente que se sente incomodada com isso.
Zdenek Pracuch
05/11/12