OPERÁRIOS QUALIFICADOS
Não é de hoje que os empresários do setor calçadista se queixam sobre a baixa qualificação dos funcionários na produção. Numa conversa com uma jornalista amiga que visitou a exposição de máquinas no Sul, comentou comigo a queixa dos expositores de máquinas modernas, sofisticadas, cheias de equipamentos eletrônicos, que encontram dificuldade em vender estes equipamentos por alegação dos empresários de que não dispõe de funcionários com escolaridade suficiente para operação destes equipamentos.
Esta queixa não constitui nenhuma novidade, mas só confirma o círculo vicioso em que se encontra a solução desta questão. Baixo salário é igual a baixa escolaridade ou até um nível baixo de motivação e de falta de vontade progredir na vida. Remuneração alta é igual ao desempenho melhor, com alta motivação e possibilidade de subir na escala social e profissional. Quem tem coragem ou quem pode romper este enigma?
Um cortador que souber fazer cálculos de consumo de material, com toda certeza irá cuidar do aproveitamento do material melhor, do que um cortador, que com uma faca na mão, simplesmente, apreendeu a despedaçar matéria prima. Um passador de cola, um apontador de sola, um operário da prensa que conhecesse os princípios da química e da física teria, com certeza, maior responsabilidade na execução da função e saberia respeitar as temperaturas, tempos e pressões prescritas e não as manipularia pela conveniência pessoal, como acontece na maioria dos casos hoje.
A importância da educação formal acompanhei de modo realista na ex-União Soviética, no período da “perestroika” quando montei duas fábricas de calçados para a trading sueca, com a qual trabalhei, por conta de clientes russos. Salários que pagávamos, como iniciativa privada, neo-capitalista num ambiente socialista, eram muito superiores aos ganhos das pessoas que estavam inseridas nas empresas e instituições estatais. Que representavam a totalidade da vida econômica e social do regime comunista.
Assim, um engenheiro eletrônico operava a máquina de apontar e montar bico (uma velha United Shoe, comprada usada na Finlândia), um dentista trabalhava com a máquina de rebater (conhecida como Rex), uma arquiteta aparava contrafortes que vieram da Índia fora da especificação, com tesoura, e assim por diante. Não era de se estranhar, que depois de três dias o engenheiro eletrônico já veio com sugestão de como melhorar o trabalho da velha United Shoe!
Um funcionário que tem preparo educacional e que apreende a pensar antes de agir sempre terá um desempenho infinitamente superior a alguém que vê na educação uma obrigação chata imposta pela sociedade ou pais. A destreza manual e a coordenação psicomotora é tão importante quanto a acuidade mental. A pessoa que pensa sobre aquilo o que faz terá um desempenho muito maior do que um autômato humano que repete “ad infinitum” os movimentos treinados – mas nada além disso.
Muito se tem falado sobre a educação formal, sobre o baixo nível de conhecimento dos alunos oriundos das escolas públicas, do desempenho decepcionante nos campeonatos internacionais de conhecimentos, onde os últimos lugares já estão cativos para alunos das escolas brasileiras. Tudo isso irá comprometer o desempenho da economia nacional nos próximos quarenta anos, se a situação não se reverter. Por que quarenta anos? Porque foi este o tempo que os Tigres Asiáticos levaram para se tornarem potencias econômicas de hoje e onde atulamente de 80 a 90% dos alunos atingem o grau superior de educação.
E nos, aqui, temos dificuldades para encontrar operários com escolaridade que pelo menos permita operar as máquinas modernas da indústria de calçados. Por onde anda um PAC para educação?
Zdenek Pracuch