OLHO DO DONO
Na revista Exame (edição 31/10/12) está publicada uma entrevista com o professor da Harvard Business School, Clayton Christensen, sobre os dois lados do sucesso, no mundo dos empresários, onde o sucesso profissional muitas vezes representa o fracasso na vida pessoal e familiar.
Ganhei do meu prezado amigo Ricardo Delbem (mais uma vez muito obrigado!) o livro do professor Christensen How Will You Measure Your Life? - (Como Avaliar sua Vida? editora Alta Books - edição em português), onde o professor analisa e estende o assunto de tanto interesse para a classe empresarial e até para simples funcionários, assoberbados de tarefas e obrigações nos dias nada fáceis pelos quais passa a economia nacional e global.
Resumindo a tese do livro, podemos salientar dois aspectos: primeiro o ponto de vista materialista que comanda a maior parte das nossas atividades e que não deveria ser o motivador principal de nossas ações e, segundo, os valores humanos como convivência familiar ou social beneficente, ou a educação dos filhos, por exemplo, e que deveriam ser atividades prioritárias.
Todos nos conhecemos e convivemos com donos de empresas ou homens públicos tão absorvidos pela atividade deles, que não lhes sobra tempo para praticamente nada, além das atividades profissionais. Por que será? A resposta está no simples fato de a pessoa nunca ter sido alertada sobre o comportamento errado, ou porque nunca teve chance de observar um modelo de gestor ou não recebeu treinamento nem teórico nem prático para o exercício das funções. E, por estes motivos, está negligenciando, sem o perceber, uma parte importante da vida delas
As duas palavras chave para a mudança do comportamento para algo mais racional e até mais produtivo são os verbos planejar e delegar. Como disse numa das entrevistas o embaixador Rubens Ricupero – nenhum dos dois verbos é o forte dos brasileiros. Mas o planejamento é essencial para qualquer atividade, até para a vida familiar. Sem o planejamento estamos nos desgastando, sempre correndo, com uma sensação de que ainda estamos atrasados com algum compromisso ou tarefa a cumprir. Como ser um bom executor se estou tentando executar tarefas de cinco horas em duas horas que tenho disponíveis?
Como delegar, se não acredito na capacidade de ninguém, além da minha, se estou convencido de que se eu não fizer a tarefa por mim mesmo, ninguém a fará a contento? Será? O olho do dono engorda o boi, diz um velho provérbio. Mas os tempos mudaram. Hoje, o patrão que quer estar presente ao mesmo tempo na portaria para ver a entrada da mercadoria, na produção para ver se não há ociosidade ou desperdícios, no despacho, para conferir as Notas Fiscais de saída e na administração, para ver se o pessoal não navega no Facebook ou Twitter em vez de trabalhar, este patrão está estressado sem o saber, mas acha-se o máximo em eficiência e gestão.
Ao invés de delegar, após planejar as metas e os meios de atingi-las, instruir os subordinados e cobrar os resultados, está tentando, como se diz na gíria futebolística chutar o corner e cabecear para o gol. É óbvio que não dará certo. Não adianta ser o primeiro a chegar e o último a sair da empresa. – Hoje com a tecnologia disponível não há nem necessidade de vir à empresa! Com câmeras instaladas em pontos cruciais, com zoom, posso visualizar o que acontece dentro da minha empresa, em tempo real, via meu celular ou tablet do hotel de Nova York ou sala de espera do aeroporto de Frankfurt na Alemanha. E pelo mesmo celular posso cobrar o que faz aquela “rodinha” em torno da mesa do supervisor! Estamos no segundo decênio do terceiro milênio, vamos aprender gerir as nossas empresas de acordo com a nova realidade!
Porque não sair da rotina monótona e massacrante de casa – empresa – casa, nos fins-de-semana o sítio ou fazenda e na segunda-feira recomeçar tudo de novo. Quantos empresários viajam regularmente para visitar feiras internacionais, viajam para estudar tendências da moda, analisar novos mercados, freqüentam seminários e cursos fora da sua cidade de origem? Para os faltosos recomendo como motivação ouvir a canção francesa cantada por Júlio Iglesias em versão portuguesa “Esqueci de viver!” (Som Livre - YouTube).
Posso estar mais presente em todos os pontos da minha empresa ao mesmo tempo, sem sair do lugar, confortavelmente sentado, do que correndo uma maratona o dia inteiro pela empresa, sem ver nada, porque no momento da minha passagem, tudo e todos estarão perfeitamente alinhados.
Prof. Clayton Christensen ensina como planejar a nossa vida profissional e ao mesmo tempo sermos bem sucedidos na nossa vida particular. Explica porque tantos bons profissionais se tornam pessoas infelizes. Como ele diz: “A vida pessoal – quem acredita que precisa planejá-la? – Mas após uma década provavelmente você perceberá que desperdiçou parte da vida e deixou de cultivar relacionamentos cruciais para a sua felicidade. - E, quanto mais o tempo passa, admitir que você cometeu erros nessa área significa se sentir pior antes de se sentir melhor”.
Sim, o olho do dono engorda o boi, mas se a tecnologia permite, porque não olhar de longe, cercado daqueles que nos amam e aos que queremos todo o bem?
Zdenek Pracuch
17/12/12