MY WAY

Numa conversa recente com Luiz Neto, editor do jornal Comercio da Franca, sobre a repercussão entre os leitores sobre as matérias da minha coluna lá publicadas, este me disse, que a aceitação está muito boa, mas que também recebe telefonemas no sentido “se o Pracuch sabe tudo, porque não abriu uma fábrica para ele, para mostrar como se faz?

Esta alegação não é nova, já a ouvi dirigida diretamente para mim e a minha resposta foi sempre a mesma: nunca tive esta ambição. – A história da minha vida, talvez ajude a explicar esta falta de ambição ou do interesse. Viemos para o Brasil, com minha esposa como refugiados políticos do regime comunista implantado na ex-Tchecoslováquia em 1948. Durante muitos anos acreditávamos poder voltar para lá. Durante estes anos nasceram filhos, se formaram no Brasil, eu descobri que, aquilo que nos ensinaram na organização Bata, era algo desconhecido na indústria de calçados no Brasil e que muita gente precisava destes conhecimentos e, assim, terminamos por nos radicar definitivamente neste país.

Tendo escapado por um triz da prisão, por motivos de ideologia e, talvez, por algum motivo das vidas passadas que a regressão explica, sempre prezei acima de tudo a líberdade. Liberdade de ação, de decisões, de movimentação e o simples pensamento de abrir uma indústria de manhã e fechá-la a noite durante anos até o fim da minha vida, me deixava agoniado.

Mantive a minha liberdade a despeito de muitas tentações, quando recebia oferecimento de ricos fazendeiros, médicos ou comerciantes, depois da minha atuação marcante na Calçados Saméllo, para me associar e criar em sociedade uma indústria de calçados. Preferi a minha liberdade.

O futuro me mostrou o acerto da minha decisão. Com a minha desvinculação de uma situação estável e contínua, fiquei livre para assumir postos no exterior, várias vezes e, assim, adquirir novos conhecimentos e experiências. Trabalhei nos quatro continentes (menos na Austrália) conheci um grande número de indústrias, ensinei muito mas apreendi muito mais e no final voltei para o Brasil onde comecei aplicar tudo o que poderia melhorar o nível de competitividade na luta global pelos mercados.

Sei que minha atuação e ensinamentos mudaram o rumo da vida de muita gente para melhor, tanto no Brasil, como em outros países como Portugal, ex-Yugoslávia, Rússia, Estônia, Bangladesh, Trinidad & Tobago, México ou Argentina. É um sentimento tão gratificante, saber que uma pessoa melhorou de nível de vida pelo simples fato de ter apreendido com a gente alguma coisa a mais, ganhar uma qualificação melhor ou conseguir um emprego melhor!

Amizades que a gente coleta com este tipo de atuação são duráveis e são fonte permanente de recordações que resistem ao tempo. E hoje como resultado deste convívio com tantas pessoas diferentes, nos paises diferentes, alarguei meus horizontes de entendimento e vejo e analiso os acontecimentos sob ponto de vista global, sem me deixar envolver pelas condições ou circunstâncias do momento ou locais.

Exerci posições executivas em companhias de âmbito mundial, mas sempre prezei e pratiquei a mais estrita independência. Como cantava Frank Sinatra na canção inesquecível: “I did it my way!” ou seja: Fiz isso ao meu modo!

Meu querido amigo Luiz Neto: este escrito acabou sendo muito pessoal. Devia ser resposta, ou melhor, devia ser justificativa para este caso que, sendo tão sábio e dando tantos conselhos, porque não possuo, eu mesmo, uma indústria? – Se não quiser publicar, tudo bem, continuarei a me justificar perante quem achar digno da justificativa. E os outros?

Pela agenda cheia de compromissos, acredito que há ainda muita gente que precisa de ajuda, de treinamento e de introdução de métodos de trabalho e de gestão mais condizentes com a atual situação de economia. Para estas pessoas estou sempre à disposição com o propósito de garantir emprego e uma vida digna para os que mais precisam, ou seja, os trabalhadores simples na indústria de calçados que sempre são as primeiras vitimas da incúria ou da incapacidade empresarial.

Zdenek Pracuch