MODELAGEM? APRENDENDO SEMPRE!

A gente nunca para de apreender. Ai daqueles que já sabem tudo! É necessária certa humildade para reconhecer o fato e ter coragem para dizer: “Não sei!” Com todos os anos vividos sou um exemplo, de como a gente não pode parar de apreender.

Como jovem, na Escola de Trabalho da organização Bata, estudei por quatro anos duas vezes por semana por duas horas a Modelagem. Exaustivamente, desde a anatomia do pé até a construção de formas, sem falar nos infinitos tipos de calçados. Nunca pratiquei a modelagem diretamente mas, por força das circunstâncias sempre fui envolvido com problemas que ela nos traz.

Para descobrir, agora no finzinho da vida, que tenho que voltar a estudar tudo de novo. – Acontece, que um inglês de  nome David Lyon, que foi modelista durante mais de cinqüenta anos, nunca se conformou com o fato de que com toda a perícia, com todo capricho, os modelos quando postos na forma ou tendo entrado em produção, sempre apresentavam problemas. Sobrando material, faltando material – sempre havia necessidade de fazer ajuste.

Mesmo o uso intensivo do sistema CAD com a ajuda de diferentes programas de informática, não chegou a resolver o problema. Antes até serviu para agravá-lo, já que confiando no programa, muitos jovens modelistas, e más línguas dizem que são muitos, não conheciam até os mais básicos princípios de modelagem.

Esta é a razão para termos tantos modelos problemáticos em tantas fábricas de calçados. Porque um modelo tecnicamente mal concebido não traz problemas somente para a produção mas é desconfortável para usar.

David Lyon modelou, talvez, todos os tipos de calçados existentes, trabalhou, ensinou, serviu de consultor para marcas mundiais e pode dizer que deve ser muito pouco aquilo o que não sabe sobre a modelagem. Mas não se conformava com os maus resultados que obtinha ou encontrava. Estudou o assunto, com uma aproximação diferenciada daquela consagrada por centena de anos de aplicação e elaborou um novo sistema de modelagem, que batizou de Modelagem Percentual, baseada no que ele chama de Medida Chave, marcada na própria forma.

Publicou um livro sobre o assunto em março deste ano. É natural, que movido de curiosidade sobre um assunto tão importante, pedi o livro imediatamente e comecei a estudar, para descobrir, para meu grande espanto, que devo esquecer tudo o que pensava saber o sobre a modelagem e escalação de modelos e  começar apreender de novo.

Aliás, isto já me aconteceu uma vez. Ensinei a centenas de pessoas o método de cálculo de custo e de formação de preço de venda através de numerosos cursos e até publiquei um livro com este tema. Em 1998 o guru americano, Peter Drucker publicou no livro “Desafios para Gerenciamento no Terceiro Milênio” a idéia de como formar os preços no terceiro milênio e tornou obsoleto de uma hora para outra, tudo que eu (e outros também) ensinava.

Tal, como todas as grandes idéias, tanto a do Peter Drucker como a do David Lyon primam pela simplicidade e a gente se sente envergonhada, de não o ter visto, que não tinha pensado deste modo antes.

David Lyon abandona medidas ou ângulos fixos para desenhar. Fixa e marca um comprimento básico na forma, que denomina “medida chave” e o modelo é desenhado em proporções percentuais derivadas desta linha básica. Não abandona a informática. Uma vez criados estes pontos básicos na forma, estes podem ser transferidos digitalmente para o CAD para continuar o desenvolvimento ali. Aproveitando-se da rapidez e da precisão que a informática nos oferece. Porém, agora trabalhando numa base muito mais segura e precisa, que evita problemas futuros na produção e até no uso.

Como disse, no início da crônica, nunca podemos parar de apreender. Gosto de citar a frase que levei comigo dos meus anos com a NIKE: Não existe linha de chegada! – Nunca existiu e nunca existirá. Sempre aparece alguém fazendo algo melhor ou mais perfeitamente do que o fazíamos. Ainda bem. É este desafio permanente que nos mantém jovens e vigorosos por mais tempo.

Zdenek Pracuch