MERCADORIA EM GIRO
A maioria das fábricas brasileiras de calçados padece de uma deficiência generalizada que é o excesso de material, ou de mercadoria semi-elaborada em giro. Há fábricas, onde até a movimentação se torna difícil devido a quantidade de material em operação, ao mesmo tempo.
Este material representa uma grande parcela do capital de giro que, com as taxas extorsivas de juros, praticadas no Brasil, dificulta qualquer competição econômica viável. Vejo fábricas, onde ficam espalhados pelo chão, muitas vezes até vinte dias de produção. Para quem não está familiarizado com a produção de calçados, basta dizer, que somadas todas as operações necessárias para a confecção de um par, estas raramente ultrapassam trinta minutos. Ou seja, se os calçados permanecem entre início e termino de operações durante vinte dias úteis, girando (ou melhor – ficando parados) dentro da fábrica, isto representa trezentas e sessenta vezes mais tempo do que o necessário para se produzir um par.
Não estou pregando nenhuma utopia. Dou assistência para duas fábricas em Nova Serrana, onde numa delas estamos produzindo um par em cinqüenta minutos e na outra numa hora e quarenta minutos. Calçados normais, tipo tênis ou tipo “skate” e calçados femininos.
Já levei muitos SãoTomés, que não quiseram acreditar neste milagre, para ver e todos saíram destas fábricas, sacudidos nas suas convicções, mas mesmo assim geralmente afirmando – na minha fábrica isso não será possível e alinhavam uma porção de argumentos absolutamente injustificáveis. Os argumentos apresentados poderiam, todos, sem exceção ser enquadrados na categoria – estou perdido e não faço a menor idéia de como fazer isso!!!
A situação da indústria de calçados no cenário global está numa mudança dramática e constante e, nunca antes, o darwinismo na indústria era tão visível. Quantos grandes nomes da indústria de calçados estão, hoje, na lista dos desaparecidos? E quantos estão na fila para entrar nesta lista? O tempo com as suas mudanças passa inexorável e quem não se adapta a nova situação não sobreviverá.
Temos duas razões poderosas para afirmar isso. Uma delas é financeira e a outra é comercial. Vejamos a primeira: O crédito farto para a indústria está com dias contados. A capitalização da Petrobrás, as máquinas da Casa da Moeda, a entrada de capital para investimentos escasseando cada vez mais e a ameaça real da inflação irá num futuro bem próximo dificultar as operações financeiras de crédito, principalmente aos que precisam destas operações. Este filme já foi visto tantas vezes!
Deixar capital girando, ou melhor, ficar parado dentro da indústria, não só será pecado capital, mas será a causa mortis numa luta competitiva. As compras na quantidade exata, sem grande antecipação, será outra parte importante a ser vigiada quando do controle do capital de giro.
Agora, me digam, quantas empresas conhecem, que lhes possam responder imediatamente sobre o montante do capital de giro em mercadoria em processamento, ou sobre o valor dos estoques. E quantas têm condições de responder, se estes valores estão crescendo ou diminuindo ou se estão acompanhados e controlados, pelo menos semanalmente? Mas isso é a gestão necessária no terceiro milênio! Meu caro dono de empresa, ou até empresário – se Você não tem estes dados ou não se dá o trabalho de acompanhamento e de controle, seu futuro está muito duvidoso.
A segunda razão para apressar a mercadoria em giro, a comercial, está baseada na mudança dramática que está ocorrendo na comercialização do calçado, bem, digamos de qualquer mercadoria de consumo. É notório e sabido, que o varejo está descapitalizado. O capital do varejo está nos arquivos do computador ou nos gavetões com as fichas do crediário.
O sonho do varejista é trabalhar com estoque reduzido ao máximo e com reposição expressa da mercadoria vendida. Para satisfazer estes desejos é óbvio que a rápida circulação do produto dentro da fábrica é primordial. Ninguém mais quer esperar semanas e até meses para receber a mercadoria que encomendou. Se a reposição vier pelo Sedex em questão de horas, cativaremos o cliente para todo e sempre!
Novamente vou afirmar a despeito de todo ceticismo dos gerentes de produção, que este é o caminho e quanto mais demorarem para trilhá-lo, mais difícil será competir com os que não tem medo de inovar. Se a pessoa não sabe como fazer, não tem o direito de afirmar que a determinada coisa não é possível. E se alguém perder o trem da história, nunca mais irá alcançá-lo. Observem a natureza: a única coisa constante na natureza é a mudança. É a razão da sua sobrevivência a despeito de todas as calamidades e catástrofes. Porque não adotar uma atitude semelhante?
Zdenek Pracuch
13/12/10