CONVIVÊNCIA DE DUAS MENTALIDADES

Foi uma semana interessante. Foi me dado viver duas experiências, na mesma comunidade, comunidade esta afetada pelos mesmos problemas, mas quanta diferença em relação a aproximação para a solução dos problemas!

A primeira experiência foi deveras gratificante. Fui convidado para assistir o lançamento do livro do Divaldo Moreira, fotografo deste jornal. Cheguei pela primeira vez para Franca 15 anos antes de Divaldo ter nascido e sou testemunha da deterioração do ambiente daquela época para cá registrada com maestria no livro Nascentes do Espraiado. O livro é um alerta para a preservação daquilo o que ainda sobrou da natureza após anos de devastação, mostrando com uma sensibilidade extraordinária o mundo dos insetos, das aves ou das borboletas, todos eles vítimas inocentes do nosso progresso.

Será que é mesmo um progresso? Será que o preço que nossos filhos e netos pagarão por esta ilusão do crescimento a qualquer custo valeu a pena? O futuro nos dará a resposta, mas as duvidas suscitadas pelos nossos atos demonstrados com a publicação deste livro que chama a atenção para os problemas da poluição e degradação do ambiente em que vivemos, não podem ser ignoradas e todos os homens e mulheres conscientes do dever de tentar deixar o planeta melhor do que o encontramos quando aqui nascemos, não podem ficar indiferentes ao que acontece em nosso redor.

Foi uma experiência sumamente agradável, passar uma noite rodeado de pessoas com a mesma comunhão dos sentimentos que reafirmaram com a sua presença, que existe na  coletividade a consciência deste compromisso com a natureza e o nosso mundo.

A segunda experiência foi radicalmente oposta à primeira. Do devaneio da preservação da natureza bucólica fui trazido para triste realidade do cotidiano pelo barulhento carro de som da entidade sindical convocando os companheiros a resistirem e revigorarem as suas reivindicações salariais e de benefícios contra o sindicato patronal. Luta de classes, embora não explicitamente declarada era a tonica do inspirado locutor, que não poupava adjetivos depreciativos para a odienta classe dos empresários.

Um carro de som com sindicalista a bordo, na porta de uma fábrica é um instrumento que, no passado, poderia levar uma pessoa até a presidência da República. O futuro  ainda nos deve resposta sobre esta experiência que ainda não terminou. É no decorrer da tempestade que o comandante mostrará a sua competência. A nús, pobres tripulantes, só resta torcer para sair desta sem muitos danos.

A luta dos sindicalistas de hoje está errando o alvo. A luta deveria ser em favor da conservação de empregos, da união das forças e de interesses mútuos e não na radicalização de reivindicações, que no contexto atual da economia não estão somente fora da realidade. Estão fora de qualquer racionalidade. Acenar a esta altura da séria crise mundial com greve não pode ser tomado nem como uma piada. A não ser que todos os trabalhadores brasileiros façam greve geral para acabar com roubalheira, com a corrupção e com os escândalos no executivo e legislativo. Infelizmente, a experiência ensina que esta é uma utopia, que não se realizará nunca.

O carro der som não perdeu tempo em anunciar a luta contra capitalismo, sem se dar a conta que o capitalismo, tal como pregava Karl Marx já morreu há muito tempo, junto com o comunismo tal como o proclamava o dito cujo. Na minha biografia está uma parte da vida vivida sob o nazismo do Hitler (com uma participação na 2ª guerra mundial) três anos vividos sob a ditadura comunista do Stalin e a observação dos estertores finais do comunismo durante o nascimento da “perestroika” na Rússia quando naquele periodo montei duas fábricas de calçados naquele país.

Com estas experiências, vividas pessoalmente e participando ativamente das atividades econômicas na Rússia,  me sinto muito a vontade para comentar a propaganda do carro de som do sindicato dos sapateiros, quando convoca para “luta”. Posso garantir ao locutor, que graças a Deus ele vive no Brasil e pode gozar da livre expressão das suas opiniões. Porque se vivesse na Rússia comunista, ou bem mais perto como, por exemplo, em Cuba, sairia do carro de som diretamente para cadeia ou campo de trabalhos forçados para aprender a não organizar greves.

Senhores e companheiros, não é por aí. A indústria, e não só a de calçados, luta pela sobrevivência. Está na hora de unir os esforços e não pregar a luta de classes! Está na hora de um entender os problemas do outro e na base do bom senso e de compreensão mútua encontrar a solução para enfrentar esta “marolinha” que está virando um “tsunami” de proporções inimagináveis.

Discordei há poucos dias, de um empresário que disse: Se eles querem briga, vou fechar isso aqui e pronto. - Não vai fazer nada disso, fui obrigado dizer a ele, talvez Você não se deu conta que tem uma obrigação social para com aqueles, que trabalham para Você e confiam na sua liderança! Você é responsável pelo bem estar deles e dos dependentes deles! A responsabilidade social, porém, está nas mãos tanto de empresários como dos sindicalistas. Estes, por suas reivindicações, podem invibializar a operação de uma empresa colocando, assim, em risco a sobrevivência desta e, por tabela, a dos seus funcionários.

Que semana que nos foi dado a viver! Num evento a demonstração da civilidade e da responsabilidade cívica e do outro lado pregação da intolerância inconseqüente de luta de classes com base nas premissas superadas e enterradas pela história. Francamente, não é fácil viver e orientar-se num mundo tão cheio de contradições.

Zdenek Pracuch