MÃO-DE-OBRA QUALIFICADA (II)

Embora notando certa retração do mercado, com reflexos sobre a produção, a pouca disponibilidade de mão-de-obra qualificada constitui um problema permanente. A despeito do ôba-ôba do governo sobre a criação de 212 novas escolas técnicas de nível secundário, especificamente em benefício da indústria de calçados não foi feito nada. Os esforços do SENAI nos clusters calçadistas, com seus cursos de curta duração ajudam mas não podem resolver de maneira eficaz e permanente o problema existente.

As inovações tecnológicas, a crescente complexidade de gestão, novos métodos de gerenciamento do elemento humano – tudo isso requer um preparo bem mais profundo dos trabalhadores na indústria de calçados. Na situação atual, todos procuram a mão-de-obra qualificada, mas ninguém está disposto de investir em educação e treinamento da mesma.

Esta situação também afasta os jovens promissores de considerar uma careira na indústria, quando veem que a profissão não é valorizada e não oferece meios de crescer profissionalmente. Vivemos uma era de tecnologia avançada que domina todos os aspectos das nossas vidas. Mas toda e qualquer tecnologia tem na sua base o elemento humano bem treinado. E esta base, quando olhamos a indústria de calçados  brasileira, está bem precária.

Houve tremendas mudanças no desenho e na produção de calçados no último decênio. Com ajuda de computadores o estilista idealiza o modelo em 3D, modelista técnico transforma este desenho em 2D para permitir o corte de peças, que pode ser feito pela máquina de corte diretamente do computador para computador. Peças cortadas são processadas e o calçado está pronto em dois dias para ser enviado ao comprador.

Não se trata de “sonho de uma noite de verão” parafraseando o Shakespeare. É uma realidade. Chineses produzem calçados nas fábricas modernas em três horas e até em Nova Serrana, Minas Gerais, já produzimos calçado numa hora e meia!

Que ninguém diga, que estamos pedindo o impossível. - Não há comparação possível entre Bangladesh e o Brasil. Para os bengalis o Brasil é o Primeiro Mundo. No entanto, o pessoal de lá entendeu perfeitamente a importância da indústria de calçados para a criação de empregos e mantém escolas técnicas de alto nível.

Vai aqui uma pequena amostra do currículo escolar do Colégio da Tecnologia de Couro em Dhaka, capital de Bangladesh:
- Princípios de design e avaliação das tendências do mercado;
- Modelagem com aplicação de tecnologia 3D CAD;
- Conhecimento da informática e habilidade em usar Internet e comércio eletrônico;
- Conhecimento de materiais modernos para confecção de calçados, seu uso e propriedades;
- Conhecimento de uma ou duas línguas estrangeiras;
- Conhecimento de logística internacional, procedimentos de importação e de exportação;
- Compreensão de sistemas de Qualidade Total e dos sistemas ISO;
- Gerenciamento, trabalho em equipe; linhas de montagem, programação e produção de produtos de nível mundial;
- Conhecimento de marketing;
- Técnicas de treinamento de operários polivalentes;
- Conhecimento de técnicas de proteção do meio-ambiente;
- Gerenciamento de recursos e de relações humanas.

Gostaram? Deve ser ótimo ter colaboradores escolhidos para treinamento e treinados sob este sistema de educação profissional. E sim, ainda se exige uma mentalidade ou postura adequada à economia global. – E tudo isto em Bangladesh, que a grande maioria dos leitores nem tem ideia onde fica. Mas será este o pessoal, que logo mais será mais uma pedra no nosso sapato.

O colégio de Bangladesh se alinha entre as mais prestigiosas escolas vinculadas a indústria de couros e calçados, tais como CTC em Lyon e Cholet na Franca, Pirmasens Fachschule na Alemanha, The Footwear Design and Development em Neida na Índia, International School of Footwear em Leicester, Inglaterra ou Universidade Tomás Bata em Zlín na República Tcheca.

O saudoso Peter Drucker disse que o terceiro milênio será dominado por quem terá informação. Podemos completar: informação e conhecimentos. E como se adquire o conhecimento? Pelo estudo e treinamento. Como dizem os amigos americanos: 3 S! (So simple, stupid!)

Mas parece que as placas “Precisa-se de mão-de-obra qualificada” não desaparecerão nunca!

Zdenek Pracuch
21/11/11