MÃO-DE-OBRA

De repente o Brasil, a indústria de calçados inclusive, está descobrindo que está faltando mão-de-obra. Não adianta anunciar, não adianta pagar prêmios aos funcionários para ajudarem na busca do pessoal, a mão-de-obra sumiu. Que fique bem entendido, falamos de mão-de-obra qualificada, embora nem tanto, mas uma mão-de-obra suficientemente treinada e educada para assumir funções, às vezes bem simples, numa fábrica. E, também de repente, descobrimos, que aquelas reportagens situando os nossos alunos entre os últimos nas classificações de competições internacionais de avaliação dos resultados de ensino, não estão tão erradas, nem tanto preconceituosas.

Estão aparecendo candidatos ao emprego, sim, mas fazer com eles o que? À primeira vista demonstram, que não tem a mínima condição de exercer alguma função, nem que seja de mínima responsabilidade dentro de uma fábrica. Assisto o trabalho de três psicólogas em  três indústrias onde presto a minha assistência. Acompanho, as vezes as entrevistas e testes a que são submetidos os candidatos ao emprego. Os resultados na sua maioria são decepcionantes. Não falo de qualidades de caráter, da personalidade, que a psicologia nos desvenda. Refiro ao simples aproveitamento da escolaridade, aquilo o que deveria ser patrimônio de cada aluno que, pelo menos, terminou o ensino fundamental.

O adjetivo adequado é aquele que já usei acima: decepcionante! O Brasil, segundo os seus atuais governantes está se aproximando do primeiro mundo, está ganhando respeito no contexto das nações e está fadado a um destino glorioso. Não é esta a opinião do economista José Roberto Mendonça de Barros. “Bastou o País voltar a crescer para que se noticie, em todas as regiões, a escassez de pessoal de todos os tipos de qualificação. Não é preciso muito esforço para observar que o nosso sistema educacional está muito aquém do necessário, especialmente em termos de qualidade. O analfabetismo funcional ainda é muito elevado; a distância das universidades do mercado de trabalho é significativa; nossos estudantes se apresentam mal em testes internacionais” palavras do economista, talvez, hoje de maior visão da realidade brasileira na atualidade. 

Quem acompanha a evolução da indústria de calçados no mundo, por algumas décadas afora, sabe que os ciclos de evolução são implacáveis. Pergunto: onde está hoje a outrora florescente indústria de calçados da Coréia do Sul? Onde está a indústria de calçados do Taiwan? Sem falar na indústria de calçados dos Estados Unidos, para cuja morte contribuimos em grande escala? E as indústrias da Inglaterra, da Alemanha, de Portugal, da outrora poderosa Itália?

Ainda o José Roberto Mendonça de Barros: “Como resultado, o salário real tem subido muito, bem acima da evolução da produtividade. Bom para os consumidores e para os mercados de bens, ruim para os custos.” Querem uma análise mais sucinta para explicação do crepúsculo da indústria de calçados? As palavras chaves “bem acima da evolução da produtividade” trazem embutidas em si o destino da nossa indústria. Não adianta encher as nossas fábricas de pessoas não qualificadas, de pessoas que tem dificuldade em aprender, porque não foram ensinadas a aprender e juntar isso com técnicas de produção obsoletas, com chefias que nunca tiveram chance de se atualizar e assim por diante.

A Coréia do Sul é um exemplo visível daquilo o que um esforço no sentido de educar um povo pode representar para o futuro de uma nação. Chega de citar números, brincar com estatísticas. Nos anos setenta quem concorria com Franca era Taiwan e Coréia do Sul. Já escrevi nesta coluna, como Allan Goldsteen, sócio da Smerling Imports acabou com minha argumentação, quando me mostrou calçado feito em Taiwan, igualzinho ao nosso feito na Calçados Donadelli, com uma pequena diferença no custo – só seis dólares a menos!

Hoje, Coréia do Sul produz automóveis e aviões. Quantos Hyundai andam pelas  ruas de Franca e de outras cidades cujo forte é a indústria de calçados? Quando, há cinco anos atrás, quis visitar a fábrica da NIKE em Pusan na Coréia do Sul, no lugar da fábrica havia um enorme estacionamento.

Será que ainda há tempo para reverter esta situação, no caso do Brasil? Os resultados dos modernos e atualizados sistemas educacionais nos países dos Tigres Asiáticos demoraram cerca de trinta anos. E nos ainda nem começamos!

Até quando a crise de mão-de-obra vai continuar? Uma avaliação pouco edificante nos oferece uma resposta – até a próxima crise econômica. Haverá maior oferta, mas dos mesmos funcionários pouco qualificados. E, novamente, nos socorrendo com os economistas de visão já podemos até estimar a data – tudo indica que o ano de 2011 será um ano difícil, com a oferta de mão-de-obra, em decorrência destas dificuldades, bastante vantajosa para quem a estiver procurando.

Zdenek Pracuch