CARTA DO LEITOR
O jornal O Comércio da Franca, onde semanalmente também publico esta coluna, recebeu uma carta do leitor, assinada por Samuel Pires Magalhães a qual reproduzo abaixo em seu teor integral. Meu caro Samuel, não nos conhecemos pessoalmente, mas quero que saiba, que concordo com os seus conceitos em grau, gênero e número. Um colunista gosta e está sempre disposto a ouvir as opiniões tanto desfavoráveis como favoráveis sobre o que pensam seus leitores com respeito à coluna. O retorno recebido dos leitores é sempre muito construtivo e instrutivo. Principalmente quando traz sugestões ou opiniões divergentes.
Mas vamos à carta recebida:
“Produz\ir calçado não é fácil, como leitor da coluna do Sr. Pracuch, acho de extrema importância a discussão em torno do setor calçadista. As empresas deveriam colocar em pauta muitas opiniões do nosso colunista ... mas toda vez que ele se refere ao salário do trabalhador como um entrave para o crescimento do setor... aí não dá ... não dá mesmo .. tributação desproporcional ... leis de proteção ao trabalhador desestimulam a criação de empregos? Vide Lição de Portugal).
Só para constar, o salário de um sapateiro é de 620 reais, desconta-se o INSS, sobram 580 reais, descontando o transporte sobram 450, descontando a escolinha das crianças obram 300 e pouco, e os gastos com alimentação? E o vestuário? É impossível viver com isso, mas o povo sobrevive, todo dia acorda ás 5 da manhã, pega ônibus, deixa as crianças na creche, bate o ponto, senta na máquina e trabalha caladamente, vigiado por câmeras, várias ....
A indústria deveria buscar outros caminhos rumo a essa competitividade global. Investindo em maquinários, reduzindo custos com administração, modelagem eficiente. Avaliar gastos com marketing, tantas consultorias que acabam em nada e principalmente a CONTABILIDADE.
Em minha modesta opinião, o sapateiro deveria ser reverenciado, é ele que todos os dias transforma pedaços de couro em sapato, borracha em solados, é ele que consome e faz grande parte de nossa economia circular, come mal, sente dores pelo corpo por causa da desgastante tarefa de produzir calçados e garanto que muitos trabalhadores sequer podem comprar os calçados que produzem.” – A carta termina aqui.
Caro Samuel Pires. Não há nada a acrescentar à sua carta, a argumentação está perfeita. A única ressalva que faço é que, não faço objeção aos salários pagos aos trabalhadores como fator de pouca competitividade, mas o total do custo, onde o salário efetivamente recebido pelo trabalhador pode custar O DOBRO à empresa. Sei que é uma acrobacia poder sobreviver com salários pagos, para quem tem família e ainda tem que pagar aluguel.
Também, pelo acesso que tenho aos custos das empresas sei, que o custo de mão-de-obra raramente ultrapassa 20 % do custo, incluído o custo adicional pago pela empresa, repito custo, final. No caso do calçado de alta categoria o coeficiente baixa para 15 %. Mas o que nos torna pouco competitivos é o confisco sobre a folha de pagamento.
Por que a empresa tem que pagar salário educação? Por que tem que contribuir para o INCRA e deste modo alimentar o MST? Para senhores Stedille, Rainha e comparsas criarem desordem no campo? Por que o altíssimo confisco pelo INSS que não tem condições de dar uma assistência decente aos segurados e paga uma aposentadoria vergonhosa aos que trabalharam a vida inteira para engrandecer o país?
Ao mesmo tempo, que paga aposentadorias nababescas aos funcionários públicos e aos políticos que se aposentam com salários integrais vejam o caso do ex-governador do Mato Grosso do Sul, que exerceu o cargo durante DEZ dias e vai ter aposentadoria de 16.000 (dezesseis mil reais) – VITALÍCIA!!!! – São poucos os trabalhadores da iniciativa particular que ganham DEZ POR CENTO deste valor, por uma VIDA INTEIRA dedicada ao trabalho!
Passou recentemente por minhas mãos um estudo comparativo feito pela FIESP entre os salários e respectivos encargos no Brasil e no Paraguai. Embora o salário mínimo no Paraguai é de 610,00 reais, ou seja cem reais acima do atual no Brasil, o custo de mão-de-obra no Paraguai é 135 % mais baixo que o da mão-de-obra brasileira! Por que? Devido aos penduricalhos aplicados sobre os salários do trabalhador brasileiro.
Concordo com Samuel Pires. As empresas, de longe não esgotaram o poder de racionalização. Não esgotaram o potencial de combate aos desperdícios. A contabilidade por ele mencionada é um caso a parte. No resto do mundo é pela contabilidade que se efetua a gestão das empresas. No nosso caso, me apontem uma empresa de Franca que tem uma contabilidade de resultados e de acompanhamento do capital de giro com fechamentos semanais? No terceiro milênio, onde as informações transitam em velocidade eletrônica? Aqui a contabilidade se preocupa em atender o fisco e a CLT enquanto a empresa pode estar naufragando.
Existe falta de competitividade em relação ao mundo global e existe falta de competitividade no custo de mão-de-obra. Sim. Mas não é por culpa do salário dos trabalhadores. É por culpa do sistema. Até o governo afinal, parece, que acordou. Jornais recentemente noticiaram que o governo estuda reduzir o recolhimento ao INSS por parte de empresas em dois por cento. Na prática isto não representa nada. Mas se vamos considerar isso como primeiro passo (que não seja o último!) na direção de desonerar a folha, vamos aplaudir.
O quarto parágrafo da carta do Samuel dá uma receita completa aos empresários de como se tornar mais competitivos. Se o governo fizer a parte dele, tanto na parte das leis trabalhistas, como na parte tributária, melhoraremos bastante. Talvez não ao nível de competitividade necessário no mercado global mas, pelo menos, ao nível nacional, para nos defendermos com sucesso do tsunami dos importados.
Zdenek Pracuch
14/03/11