ISTO É COURO OU É LAMINADO?
Esta é uma pergunta ouvida com uma freqüência cada vez maior, já que poucas pessoas prestam atenção ou sabem interpretar os ícones dentro do calçado ou, porque muitas indústrias até hoje não carimbam nos produtos estas informações.
Com a evolução da tecnologia dos materiais sintéticos torna-se difícil identificar simplesmente pelo visual o material de que o calçado foi confeccionado. Com todos os anos de experiência que tenho no trato com couro e calçado, hoje me sinto inibido de avaliar o material, se não tenho como ver o carnal do couro ou o verso do material laminado.
A imitação, principalmente dos couros finos, é tão perfeita, que até consegue uma “flor solta” que só o couro poderia apresentar. Pois hoje até alguns laminados feitos na Ásia já apresentam esta característica.
Por outro lado estou assistindo nas fábricas um verdadeiro contra-senso, quando se trata de controle de qualidade com respeito ao material. Na semana passada olhei a classificação das peças cortadas por parte das inspetoras de qualidade do corte. Tratava-se do material caro, de primeira qualidade. Não obstante o montinho de peças rejeitadas crescia incessantemente. Perguntei à inspetora por que estava rejeitando as peças. Me mostrou defeitos minúsculos. Concordo, era defeito, mas era tão minúsculo, que só o olho treinado podia identifica-lo. Ademais, se for colocado no sapato, era absolutamente invisível e em nada comprometeria a qualidade do produto.
Discuti o assunto com o gerente da fábrica. Concordou plenamente, mas ressalvou, que os lojistas não aceitam nem estes defeitos minúsculos. Discutimos o assunto e chegamos a conclusão, de que se tratava em primeiro lugar de desinformação e em segundo lugar de malícia. Porque desinformação? Os defeitos minúsculos, nos tempos atuais de sucedâneos e imitações, são a prova do couro genuíno aplicado no produto. Podemos ter pelicas sem absolutamente nenhum defeito oriundas de Bangladesh, Índia ou Paquistão onde as cabras vivem dentro dos casebres dos pobres junto com família. Mas as cabras do Nordeste? Que vivem no meio dos espinhos da caatinga? Como vamos evitar que se espetem, que firam a pele nos espinhos?
E porque malícia? Muitos comerciantes gostam de negociar de um ponto vantajoso para eles. E pode ser um ponto mais vantajoso do que depreciar a mercadoria oferecida? Para esta finalidade qualquer titica de mosca no material serve de pretexto de colocar o vendedor no degrau mais baixo e faze-lo negociar a partir do ponto de desvantagem.
Concordo que uma cicatriz profunda ou mal fechada é proibida de aparecer no produto. Mas uma cicatriz mal visível a meio metro da distância dos olhos, quem é que a verá no calçado no pé? Trabalhei bastante tempo com lojas para afirmar, que nunca encontrei um comprador que tivesse objetado algum defeito do couro. E entre importadores, hoje, já prevalece a opinião, que uma marca do carrapato é selo de autenticidade do couro genuíno!
Nunca vou esquecer a cara do coronel que comandava a segurança do Banco Central de Trinidad & Tobago, que insistia na compra do calçado de couro de verniz preto para os seus comandados, quando mostrei (cortando um pé) que comprava sintético coberto de verniz, pagando preço de couro!
Para um leigo é quase impossível fazer distinção entre couro legítimo e um laminado. A diferença principal está no conforto que um ou outro proporciona, mas aí já é tarde, se a compra já foi efetivada. – Será que não estamos sendo rigorosos demais, tanto na classificação das peles, como no controle dos cortes? Quanto custa este perfeccionismo, que aumenta o custo do produto em muito e está fora do lugar numa época que proclama a volta para a natureza e faz da bandeira ecológica o modo de viver.
Quem visitou um curtume faz uma idéia exata do volume d’água necessário para processamento de peles, do montante de produtos químicos para o acabamento das mesmas e o volume da poluição que isso representa, embora tenhamos sistemas de tratamento de todos os tipos possíveis e imagináveis.
E, depois de todo este tratamento, a peça é simplesmente rejeitada por causa de uma minúscula cicatriz, invisível a trinta centímetros de distância. Há um contra-senso em tudo isso. De um lado promovemos a natureza e do outro lado não aceitamos os fatos decorrentes justamente da vida dentro da natureza.
Talvez, diferenciando o preço e cobrando bem mais caro pelo calçado com couros tão lisos que seriam indistinguíveis dos laminados, poderíamos acabar com estas exigências descabidas no terceiro milênio onde a consciência sobre o ambiente está cada vez mais presente na nossa vida diária.
Zdenek Pracuch