O QUE PENSAM (E DIZEM) LÁ FORA

É sempre bom conhecer os pontos de vista dos nossos competidores ou das pessoas diretamente vinculadas à produção e comercialização de calçados na arena global. Um destes personagens é o norte-americano Peter Mangione, muito bem conhecido no Brasil. As observações de Mr. Mangione são muito interessantes e trazem indicações sobre o futuro da indústria de calçados.

Na opinião do Mr. Mangione, o consumidor final presta pouca atenção na procedência do produto, de como e por quem é distribuído e nem presta muita atenção sobre o material aplicado, um desafio para os produtores de calçados. – Hoje a China é o centro de atenções no meio calçadista. Com um aparente consumo (não há números confiáveis) de 3,6 bilhões de pares é o maior mercado consumidor do mundo, com Europa em segundo lugar com 2,84 bilhões e Estados Unidos com 2,3 bilhões de pares por ano em terceiro lugar.

Se a economia chinesa vai manter o ritmo de crescimento atual, o consumo vai fácilmente atingir 6 bilhões de pares, ou seja quatro pares por habitante. As grandes companhias chinesas tais como Belle, Aokang, Kangnai, Li Ning ou Daphne já se preparam para este crescimento, sem descuidar das exportações. – A pressão dos compradores europeus e americanos, para as condições de trabalho e de cumprimento da legislação social, por parte dos produtores chineses, com certeza, vai contribuir para dificultar as exportações.

Mas os chineses, com salários em torno de USD 1,50 por hora ainda fazem da China um produtor com enorme competitividade, embora em outros países asiáticos os salários sejam sensivelmente menores. Mas a despeito de tudo, diz Mr. Magione, devemos observar a China com muita cautela, porque tem uma força de trabalho de 800 milhões de pessoas na idade produtiva.

Na opinião dele qualquer tentativa de proteção contra as importações da China, só irá prejudicar o consumidor local o que foi demonstrado na Europa onde, depois de 20 anos de protecionismo, as barreiras foram abolidas em 31de março de 2011. Na América do Sul o protecionismo ainda é visto como elemento de salvação da indústria local, mas não é este o caminho que economias saudáveis devem tomar, criando clusters protegidos que inibem inovação e atualização tecnológica.

O signore Vito Artioli, presidente da associação européia de indústria de calçados CEC, e bem conhecido no Brasil,  tem a opinião formada sobre a situação de produção e comercialização de calçados no mundo da economia global. Acredita que barreiras e limitação de exportação do calçados não têm surtido efeito desejado, nem para exportadores nem para importadores. Acredita que, a solução está em acordos  bilaterais como, por exemplo, poderia ser negociado entre União Européia e MERCOSUL. Diz ele que “gostaria de cobrar das autoridades européias e sul-americanas a assinatura de acordos que estão discutindo há tanto tempo.”

As primeiras negociações sobre o mercado livre começaram em 1999, mas foram suspensas em outubro de 2004. Foi o que chamaram de “intervalo para tomada de posições” ocorreu em 2009 e levou para uma conclusão em maio de 2010 que a retomada de negociações “seria possível”. -  Signore Artioli também solicitou a suspensão de tarifas de exportação para couro, dizendo que o couro está se tornando artigo de alto custo o que é confirmado pela constante perda do mercado em favor do calçado sintético. Em 2011 a indústria de calçados italiana exportou 21,2 % mais de calçados com cabedais sintéticos do que em igual período anterior. O diretor geral da organização CEC  signore Fabio Aromatici acredita que, o menor consumo da carne vermelha no mundo e o crescimento de uso de couro, para o mercado interno na China, exerce uma pressão sobre mercado de couro em geral.

De acordo com Mr. Mwinyikione Mwinyihija presidente do Conselho de Desenvolvimento de Couro do Quênia, o crescimento de consumo de calçados per capita em vários países em desenvolvimento e a projeção de população global de 10 bilhões de pessoas dentro de 20 anos exercerá uma forte pressão pelo consumo de calçados de qualquer material. “A demanda pode ser de 25 bilhões de pares por ano”, diz ele “e nos do setor de couro temos de prestigiar o couro sob todas as circunstâncias”.

Consumidores vão decidir se o calçado feito de couro ou de  qualquer outro material representa um bom valor pelo seu dinheiro ou não. E isso nos traz novamente para o Peter Mangione: os produtores que não souberem interpretar corretamente o desejo dos consumidores e o quanto estes estão dispostos a pagar para satisfazer este desejo, no melhor dos casos vão acabar com produtos pouco satisfatórios e margens de lucro mínimas, se algumas.

Zdenek Pracuch
09/04/12