A SAÚDE DO ATIVO INTANGÍVEL

Há algum tempo atrás publiquei neste espaço consideração sobre o “ativo intangível”, (Ativos Intangíveis, leia aqui), mas que representa, de fato, a vida de empresas. Não há como quantificar em números o que representa a massa de conhecimentos técnicos, sociais e especializados que estão na posse dos funcionários, mas que estão sempre aplicados em benefício das empresas durante os expedientes de trabalho.

É um ativo intangível, mas de tamanha importância para a vida e a existência das empresas que, sem este ativo que não consta dos balanços, a empresa não poderia sobreviver. Esta avaliação me voltou à mente, quando li sobre a pesquisa efetuada por uma organização de gestão de saúde, de nome Funcional.

Esta organização pesquisou dados de saúde de 143.787 profissionais entre 17 e 90 anos em todo País. E os resultados não foram nada animadores. A pesquisa apontou elevada incidência de colesterol alto, pressão alta, depressão, insônia, ansiedade, enxaqueca e até epilepsia.

Por regiões há avaliações variáveis. No Nordeste há incidência de hipertensão em 15,78% dos operários, quando no Sudeste esta incidência baixa para 9,56% e no Sul 6,63%. Na observação dos pesquisadores estas doenças da atualidade, como as denominam, estão atingindo as faixas etárias cada vez mais baixas. Antes eram concentradas na faixa dos 40 aos 60 anos.

O que também chamou a atenção era a concentração, além do colesterol e pressão alta, na região Sudeste a depressão com 4,97% e insônia e ansiedade com 2,95%. Até que ponto o aparecimento destes índices está relacionado com stress da vida moderna, com os maus hábitos alimentares e condições de vida? Só podemos supor que estas são as causas principais dos dados alarmantes verificados.

Deslocamentos penosos para atingir o lugar do trabalho, falta do sono reparador dadas as condições precárias de habitação, apelos irresistíveis da propaganda para compra de coisas supérfluas originando cobrança das esposas ou dos filhos, que mais aumentam o sentido da impotência em vencer os fatores econômicos pelo funcionário, tudo isso contribui de modo significativo para a precariedade das condições físicas e de saúde.

Um empresário, que merece este título de empresário, sempre se preza em manter em ótimas condições de funcionamento todos os ativos – edifícios, máquinas e equipamentos, veículos etc. – em perfeitas condições de uso. E o que acontece com  este ativo intangível, tão importante para um desempenho satisfatório da empresa? Que tipo de manutenção pode esperar?

Já na década dos trinta do século passado, todos os funcionários da Bata Shoe desde a diretoria até o último aprendiz, eram convocados uma vez por ano, para um check-up de saúde, efetuado no departamento de assistência social e que incluía todos os exames. E naquela época o sangue era tirado por umas agulhas rombudas, ai ai! Não havia ainda estas fininhas de hoje que picam menos que um pernilongo.

O exame era feito com todo o rigor e as possíveis falhas encontradas eram tratadas via medicamentos ou até transferência de posto de trabalho. Mas em nome da produtividade, os operários e funcionários deviam estar a altura do desempenho exigido e para isso eram oferecidas todas as condições. Isso foi há oitenta anos atrás. Até que ponto progredimos? Cada um julgue por si mesmo.

O operário brasileiro é tão produtivo, como qualquer outro operário no mundo. O que nos atrasa são os métodos obsoletos de gestão, onde perdemos grande parte da produtividade possível pelos métodos arcaicos de produção, logística interna das fábricas ultrapassada e o custo de mão-de-obra que não beneficia o operário, mas encarece sobremaneira o custo para a empresa, devido as contribuições descabidas penduradas na folha de pagamento.  

Boa parte deste estado de coisas só pode ser corrigida pela ação governamental, mas parece que o governo não está com muita vontade de mexer com as “conquistas” sindicais e petistas. Houve aumento do salário mínimo. Aumento este que será pago pelo consumidor final. Já pensaram o que aconteceria, se pudesse haver o aumento real dos salários, diminuindo o confisco dos recolhimentos obrigatórios e revertendo uma boa parte destes para a folha de pagamentos?

Há uma crescente preocupação com o bem estar dos funcionários. Já temos empresas que proporcionam aos funcionários lugares para descanso, para relaxamento, para lazer, para meditação, para ioga. Por que? Porque já entenderam como é importante ter os funcionários motivados, descansados e relaxados para melhor desempenho das suas funções. Por que não incluir como tarefa para serviço médico, que tantas empresas hoje já possuem, um check-up anual dos funcionários e principalmente funcionárias acima de 40 anos?

A pressão sobre as empresas com dificuldades no mercado interno, devido as importações e encolhimento do mercado pela entrada neste mercado dos que perderam mercado exportador, é cada vez maior. Agora, se o empresário puder contar com uma tropa coesa, motivada e em bom estado de “conservação”, a luta, embora dura, será mais fácil e mais perto de ser bem sucedida.

Para o presidente da Associação Brasileira de Qualidade de Vida  (ABQV) Alberto Ogata estimular mudanças de hábitos dentro da empresa amplia as chances  do resultado ser positivo. “É na empresa que costumamos ficar a maior parte do dia. Por isso, é o melhor local para se realizar ações para mudar o estilo de vida dos funcionários e, consequentemente, torná-lo mais saudável, produtivo e motivado”.

Zdenek Pracuch
20/02/12