AINDA SOBRE A ÍNDIA. DESCULPEM
No caderno “Economia” do Estadão (*), vi estampada com grande destaque a notícia com título “O calçado é barato. O custo humano é caro”, sobre a indústria de calçados na Índia, veiculada na Internet pela firma gaúcha Schutz.
O relatório, dizem os dirigentes da firma é interno e “vazou” na Internet. Que vazamento esquisito, se é encabeçado com o nome da firma? Será que os documentos internos das empresas têm que trazer identificação com letras enormes? Pode ser costume gaúcho, não sei.
Já me estendi sobre o conteúdo da mensagem divulgada na Internet. Não vou me repetir, embora continue achando tremendamente injusto difamar, por causa de um caso, uma indústria inteira que, dentro de poucos anos será um competidor de peso para nós e não o será pelo trabalho escravo, mas pela adoção, principalmente, de técnicas de produção e de gestão condizentes com o terceiro milênio.
Estou voltando ao assunto por causa dos comentários do Diretor do Departamento de Relações e do Comércio Exterior da Fiesp, senhor Roberto Gianetti da Fonseca, pessoa com currículo respeitável e com conhecimento profundo da problemática da indústria de calçados brasileira por ter chefiado Apex sob a direção de Dorotéia Werneck.
Basear as opiniões emitidas e publicadas na referida reportagem depõe contra a objetividade e distanciamento necessário, de uma notícia de uma única fonte e divulgada com propósitos bastante obscuros. O que a Schutz quis conseguir com isso? Diminuir a ameaça futura da indústria de calçados indiana? Um ato de vingança sobre uma parceria que foi proposta e não foi aceita, conforme eles próprios afirmam? Não há como avaliar.
O que não deveria acontecer e aconteceu é que uma autoridade do peso de um Gianetti da Fonseca, endossar as afirmações contidas num documento “vazado” é muito sério. Se os assuntos relativos aos calçadistas brasileiros forem tratados com base nas opiniões particulares, nem sempre bem esclarecidas, podemos encontrar sérios problemas pela frente.
Gianetti da Fonseca demonstra o lado diplomático da questão, quando afirma “A gente sempre tem muito receio de colocar isso na OMC (Organização Mundial do Comércio) porque pode ser usado de forma ilegítima pelos países envolvidos, mas o fato é que Índia e China praticam condições de trabalho que não são aceitáveis no mundo ocidental. Não há como concorrer com empresas que usam desses expedientes.” E reconhece que “A Índia ainda vai crescer muito”.
O mundo evolui. A atual geração de jovens francanos não participou das primeiras exportações de Franca para os Estados Unidos, onde os brasileiros foram acusados com os mesmos argumentos pelos fabricantes norte-americanos, que hoje usamos contra indianos. Não se falou de trabalho escravo, não se chegou a este ponto, mas se falou da concorrência desleal, por pagar salários muito baixos – para os padrões americanos.
O mundo girou e chegou a nossa vez. – A luta pelos mercados vai ficar mais séria a cada dia. Não vou cansar de repetir a receita para o uso das nossas armas: QUALIDADE, CRIATIVIDADE E SERVIÇO!
Zdenek Pracuch