ÍNDIA ESTÁ NA ORDEM DO DIA

Os e-mails dos fabricantes de calçados estão sendo honrados com o recebimento de mensagem não solicitada, de uma firma de calçados que, não se entende bem porque, está tentando provar que a indústria de calçados na Índia está na Idade de Pedra e que, atrás de fachadas de lojas com instalações moderníssimas, se escondem fábricas que nem fábricas são.

Também fui honrado com este e-mail e, além deste, vários amigos me encaminharam os recebidos por eles, solicitando comentário. Atendi e enviei vários, mas vi que seria um trabalho insano responder a todos e resolvi comentar esta mensagem por intermédio desta coluna.

Como já disse, não entendi bem a finalidade desta informação, acompanhada de fotos de uma fábrica, se é que merece este nome, que depõe contra qualquer ambiente de trabalho que se possa imaginar. Índia tem hoje ao lado das fábricas moderníssimas lugares onde se produzem calçados em condições, para nos, sub-humanas. Mas dentro do contexto indiano, completamente normal O operário está sentado no chão? E daí? Na moradia dele também não há cadeiras e tudo é resolvido ao nível do chão. Pena que não tirei foto de um costurador de moccasim que vi, sentado no chão, segurando com os dois pés, quase na posição Lótus, o pé do calçado e costurando a pala. Em Franca temos para isso um dispositivo mecânico que segura o produto e o costurador trabalha de pé.

E daí? Para um indiano a situação acima descrita é absolutamente normal. Muito bem. A firma gaúcha chama a nossa atenção para as condições precárias em que se produzem os calçados expostos com todo luxo e pompa. – Nada a objetar. Só posso dizer, que já encontrei fábricas no Brasil também, onde necessitava de uma dose de coragem para entrar. E por isso vamos condenar a indústria de calçados brasileira?

A Índia ao lado da miséria, que não procura esconder, possui hoje fábricas moderníssimas, que ainda não vi no Brasil. Basta dizer que a corporação mundial Bata tem na Índia a maior fábrica do grupo e que todo complexo, contando com cortumes e fábricas de borracha, emprega acima de 30.000 funcionários. Desnecessário dizer que os métodos tanto de produção como da gestão estão entre os mais avançados do mundo. Visitei um cortume particular, cuja fábrica de cabedais produzia a partir de couros com tratamento especial, sob orientação dos técnicos israelenses, cabedais para o exército de Israel. As máquinas de costura programável, automáticas, famosas Orisol, que se constituem num sonho inatingível para nossos empresários, estavam enfileiradas a perder de vista. Mantive conversas de alto nível técnico com estes especialistas – na Índia, sim senhores.

Já escrevi sobre o programa criado pelo governo da Índia para formação de operários especializados, ao lado de quadros de chefia e de próprios empresários para aprender a se movimentar numa economia global. Ainda estou devendo ao meu amigo Celso Taborda, diretor do SENAI em Franca, este plano detalhado, mas os amigos indianos nos preveniram, que a burocracia indiana é meio lenta para atender. É até confortável saber, que outros paises sofrem do mesmo mal.

Escrevi estas linhas para os beneficiários da mensagem não solicitada que já a receberam ou ainda a receberão, porque achei injusto para com os indianos mostrar só o lado sombrio que existe na indústria de calçados de lá. Temos que reconhecer e respeitar o potencial deles, porque ao lado dos outros orientais, muito em breve, competiremos com eles num combate direto.

Zdenek Pracuch