VIVER DA ILUSÃO ?
Há bastante tempo estão visíveis os sinais da depauperação da indústria de calçados no Brasil. Basta juntar as peças do mosaico e aparecerá um quadro nada animador da situação em que a indústria se encontra. Não fosse a pressão dos importados e conseqüente encolhimento do mercado interno, não fosse a fuga sintomática dos grandes grupos industriais de calçado brasileiro para o Exterior em busca de condições mais favoráveis de produzir, temos ainda a política desastrosa do governo, atento mais às reivindicações sindicais do que para as questões de produtividade e de competitividade. A última Feira Couromoda confirma plenamente esta tendência.
Vamos esquecer a publicidade da Feira ou dos jornais cujo faturamento publicitário dela depende. Vamos ver os números frios coletados pelo Sindicato de Franca, restritos ao Espaço Moda Franca, sucesso insofismável nos anos passados. E este ano? A despeito de uma visitação excepcional houve uma queda de 12 % em número de pares vendidos e uma queda de 29,8 % no valor das vendas. No ano passado havia venda para 30 países. Este ano houve venda para 14 países, sendo que alguns de nenhuma expressão no comércio internacional. Os municípios paulistas do ABC têm um PIB maior que o Uruguai. O Paraguai, Costa Rica, Suriname têm potencial de compra menor que Campinas e região. Vender para Venezuela é um ato de coragem. Vamos nos iludir que estamos exportando?
É necessário enfrentar a realidade e sair da zona de conforto, acabar com a mentalidade vigente há dezenas de anos e adaptar as nossas empresas à nova situação criada pela globalização da economia do terceiro milênio. Exemplos para agir não faltam. Basta observar os ícones da indústria de calçados no mundo, analisar o passado e ver como se comportam na atualidade. Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Holanda, Portugal e principalmente a Itália, que dominavam a produção e comércio de calçados no mundo até há poucas dezenas de anos simplesmente desapareceram da indústria de calçados, em quantidades de pares produzidos. Mas estão atuantes como produtores de calçados de alta, diria de altíssima categoria, ou calçados especiais, com preços invejáveis.
É esta a receita de sobrevivência: criatividade, inovação, seletividade, qualidade superior, flexibilidade no acompanhamento de tendências e serviço impecável. De há muito sabemos, que lucro com calçados está na venda e não na produção. Enquanto as empresas produtoras estão ficando cada vez mais anêmicas, as grandes cadeias de lojas não param de crescer e prosperar. A avaliação, de tanto agrado dos calçadistas, pelo número de pares produzidos não tem nenhum valor. O valor que realmente importa é o dos resultados que esta produção está trazendo de retorno. A lucratividade nunca foi tão importante como nos tempos atuais. Principalmente no Brasil, campeão mundial na alta de juros. Quem não puder trabalhar com capital próprio, que é resultado direto do lucro, está condenado à morte inglória.
Há poucos dias o renomado economista José Roberto Mendonça de Barros publicou na coluna dele no Estadão umas observações sobre a formação de custos que me permito citar ipsis verbis: “O espaço é bem curto para uma elaboração mais detalhada das pressões de custos, mas os suspeitos são bem conhecidos: transportes precários, energia cara, aguda escassez de mão-de-obra treinada, custo de capital de giro e um sistema tributário pesado. - Neste caso, por exemplo, basta pensar nos créditos tributários não devolvidos, nos custos das obrigações para-fiscais e no fato que o sistema penaliza a terceirização e o alongamento das cadeias produtivas, exatamente na contramão do que é necessário para dar foco às empresas e elevar a produtividade. Nessas circunstâncias, a indústria tem de escolher dois caminhos.
O primeiro caminho, que estamos namorando perigosamente, é defender o emprego e a produção nacional com protecionismo e favores a campeões escolhidos, com subsídios que apenas mascaram e postergam problemas e que acabam resultando em maiores elevações da própria carga fiscal, colocando a busca de maior produtividade, de fato, em segundo plano.
O caminho alternativo é manter a economia aberta e aproveitar os estímulos que o mundo nos oferece e simultaneamente enfrentar a dura agenda de elevar a competitividade sistêmica, olhando as causas dos nossos problemas. - Não tenho dúvida que o desenvolvimento de longo prazo é cada vez mais resultado da introdução sistemática do conhecimento, de qualidade e eficiência no sistema produtivo.”
Palavras do José Roberto Mendonça de Barros. Leram? Então leiam mais uma vez com toda calma e atenção e meditem sobre cada frase. São palavras que definem a presente situação na nossa indústria e apontam o caminho a seguir. Não se deixem iludir com medidas pontuais, demagógicas e políticas, para os quais não há mais lugar numa economia global.
Já nos acostumamos a pagar maiores juros do mundo, pagar a gasolina mais cara do mundo (a despeito do pré-sal), ter a maior carga tributária de todos os paises em desenvolvimento etc.. Mas acima de tudo não há espaço para protecionismo. Há, isso sim, espaço enorme para melhores tecnologias, métodos, ensino e treinamentos, a produtividade levada ao máximo e, principalmente, a mentalidade empresarial aberta, propícia às inovações.
Não adianta viver de ilusões. O momento é de ação, uma ação planejada dentro da realidade global, adaptada às condições em constante mudança e que exigem um acompanhamento realista. Vamos deixar as ilusões aos otimistas governamentais de plantão e viver a nossa realidade do dia-a-dia.
Há muito o que fazer, tanto no âmbito de cada empresa, como no âmbito político e social. Nestes dois casos, a ação do empresário deve se concentrar na cobrança de medidas efetivas, por parte dos que o representam. Cobrança de reformas tributária e trabalhista em primeiro plano. E, depois, o corolário das medidas relacionadas com o mercado de capitais, de câmbio e de defesa dos interesses dentro do Mercosul e tratados comerciais bilaterais, que foram tão prejudicados no governo anterior por razões ideológicas e influencias nefastas do anti-americanismo, que preferiu namorico com os ditadores de plantão que, felizmente, estão caindo um por um.
Vamos viver a realidade? Leiam, por favor, mais uma vez as palavras do Mendonça de Barros!
Zdenek Pracuch
27/02/12