IDEOGRAMA CHINÊS

Não falo chinês. Antes da minha viagem à China tratei de apreender algumas frases básicas para poder, pelo menos, agradecer ou cumprimentar as pessoas com as quais ia me encontrar. Voltando, nem precisava fazer esforço para esquecer o pouco que apreendi. Mas li em algum lugar, que o ideograma chinês para crise se compõe de duas partes: risco e oportunidade.

Vários dos meus leitores me perguntam por que parei de escrever sobre a crise. Fiquei bem contente, com a descoberta, que esta coluna é lida e até analisada pelo seu conteúdo. Mas a razão, de não mais escrever sobre a crise se deve ao fato, de esta ter passado de uma ameaça remota para uma realidade sentida e palpável em todas as esferas da vida econômica e até pessoal. Perguntem aos desempregados.

Parei de escrever sobre a crise, porque acho que cumpri com meu dever de observador e alertei, para quem quis aceitar, sobre as conseqüências do despreparo ou do desprezo para a gravidade dos acontecimentos. Desde a entrevista do Georges Soros há mais de um ano atrás, grande número de renomados economistas estavam alertando sobre a economia virtual e a fragilidade do sistema financeiro. Disto, para deduzir, o que isto significará para a economia globalizada inclusive a brasileira fortemente atrelada a esta via exportação de commodities, era um só passo. Se até na coluna do Higininho em julho havia nota alertando sobre isso! Imaginem, até coluna social tomou nota.

Somente os empresários embalados pelo otimismo oficial, com o cacique maior aconselhando o povão a gastar mais e se endividar mais do que já estava, não tomaram nota e prosseguiram gastando, contratando, assumindo compromissos na doce esperança de que o “problema é do Bush”, lembram? E agora? O empresariado assistindo a tudo o que é noticiário, esperando ouvir alguma notícia fiável dando por terminado o período de crise e a volta da bonança, esperando que o fax vai tocar e trazer gordo pedido, como fazia antes.

O ideograma chinês para crise se compõe de “risco” e “oportunidade”. O risco é inerente à qualquer atividade humana e mais ainda, à empresarial. Agora, com oportunidade já é bem diferente. A oportunidade deve ser procurada, estudada e planejada. E é neste ponto que aparece a fragilidade das nossas empresas. Onde está o planejamento? Na maioria das empresas da indústria de calçados o planejamento é sinônimo da digitação dos pedidos para as fichas de produção. Isto deveria ser chamado de programação, mas o pessoal insiste em chamar esta atividade de planejamento. Que seja.

A crise nos mostrou o despreparo dos empresários em definições a médio e longo prazo, aonde querem levar as suas empresas. Até agora grande parte não entendeu que o que afeta a vida da empresa é o que acontece fora dela. Dentro da empresa a palavra do dono é a Lei. Mas fora da empresa? Como vai impor a sua vontade, se não conhece a realidade ou não se preocupou em conhece-la? Recebendo informações de segunda mão ou informações viciadas pelos interesses do lojista, do representante, do distribuidor?

A única informação válida é a do próprio consumidor que sabe o que quer comprar, usar e quanto está disposto a pagar por isso. E dependerá de nos, se estaremos aptos a satisfazer o desejo dele, ou precisamos saber o que falta para nos adaptarmos rapidamente para permanecer no mercado.

Com o passar do tempo, estamos sempre caminhando para mais uma exposição, Francal e outras. Não é difícil profetizar que veremos a mesmice de sempre. “Novas” solas, “novos” materiais, formas com bicos, talvez, ainda mais elevados?  Vamos torcer para ver alguma concepção nova, realmente original. É neste sentido que o planejamento, do futuro da empresa, deveria ser conduzido. Descobrir novos nichos de mercado, construções inovadoras, explorar novas tendências que orientam a vida moderna e por que não as novas modalidades de vendas e de entregas condizentes com o terceiro milênio?

Existem oportunidades e muitas. Vejam o ideograma chinês. Estamos em crise? Sim e uma crise série e profunda. Mas nem por isso vamos parar. Pelo contrário, nunca antes ("nefte paíf") foi tão necessário ser inovador e ousado. Ser diferente, original e criativo deveria ser a mola mestra, da ação de todo empresário, que não quer ver a empresa definhar.

Não quer dizer, que dentro das empresas não há nada a ser feito. Há e muito! Temos hoje empresas grandes e bem organizadas a primeira vista, mas que não sabem nem calcular o consumo de materiais ou calcular o custo pelos métodos do terceiro milênio! O que dizer, então, sobre o acompanhamento de resultados ou parte financeira, capital de giro etc. – semanalmente!!

Aos meus amigos leitores que me perguntaram por que não escrevo mais sobre crise, só resta a dizer, que não vou escrever mais sobre ela, mas tentar conviver com ela e principalmente ajudar àqueles que queiram a ela sobreviver.

Zdenek Pracuch