CONTROLE DO CAPITAL DE GIRO

O controle do capital de giro é uma das ferramentas mais importantes para exercer uma boa gestão empresarial. Mas como esta ferramenta está desconhecida! Tive comprovação deste fato, quando no ano passado proferi uma aula na faculdade de Ciências Contábeis numa escola da região, sobre a gestão administrativa e contábil na produção na indústria de calçados. Entre os alunos da Faculdade estavam donos de escritórios de contabilidade que depois da aula me fizeram dar praaticamente outra aula com as perguntas, de como fazer este controle.

O controle da movimentação, da evolução ou da involução do capital de giro, não tem nada a ver sobre a existência ou volume do capital de giro. Este, a grosso modo, é avaliado no balanço geral onde incluímos ativos realizáveis e disponíveis. O controle da movimentação do capital de giro é exercido periodicamente e o indicativo da boa gestão é a sua conservação, evolução, ou como indicativo de má gestão é a sua diminuição.

Vivi uma experiência interessante e gratificante ao mesmo tempo, há poucos dias, numa firma onde presto assistência.. Não vou mencionar o nome do empresário e tão pouco a cidade, porque assim seria fácil a identificação. Introduzi lá este controle, junto com a contabilidade de resultados e planejamento financeiro no começo do ano passado. O ano de 2008 foi muito bom sob todos os pontos de vista e os números eram animadores.

Mas, como tudo em ..... (e quase escrevi o nome da cidade) dura um determinado tempo e depois tudo volta para a pasmaceira de sempre, também nesta empresa, devido ao acumulo de trabalho do fim do ano, a secretária financeira deixou de fornecer estes dados ao dono da empresa. Isto é normal, se o dono não cobra, acaba não recebendo mais. E se cobra a pessoa encarregada vem com um desculpa do tipo – estive levantando dados sobre “... contribuições re-tributáveis subsidiadas conforme a última norma da Secretaria de Finanças do Município.” – assunto este inexistente e sobre o qual o dono não entende nada e não era para entender mesmo. E sai pela tangente com uma cobrança morna – vê se me dá os relatórios o mais depressa possível! – e com isso o relapso funcionário ganha mais, pelo menos, duas semanas de tranqüilidade.

No nosso caso, porém, quem pediu os relatórios fui eu, como parte das minhas atribuições de auditar e avaliar o desempenho da empresa. E não deu outra. Tradicionalmente os meses de janeiro e fevereiro têm um faturamento mais baixo e o mês de dezembro as despesas mais elevadas. Não precisa ser assim, mas os empresários acham que assim sempre foi e assim sempre o será. Discutir adianta? – Mas, com os controles na mão a coisa muda de aspecto e as pessoas mais impressionáveis podem ficar assustadas quando confrontadas com números.

Os números que a seguir vou citar são reais. O capital de giro “engordou” e acumulou em 2008 a respeitável soma de R$433.864,00. Mas em dois meses (!) – janeiro e fevereiro de 2009, quase a metade desta gordura derreteu perdendo R$234.095,43! Ficando do saldo positivo do ano passado um saldo de apenas R$ 199.768,57 . O bonito saldo  do ano passado foi perdido pela metade em apenas dois meses de faturamento baixo e de despesas e o resto normais.

Perceberam o perigo que se esconde na falta de controles? E esta empresa faz (ou devia fazer) relatórios semanais! Naturalmente, quando o dono da empresa viu a catástrofe começou a tomar medidas corretivas, mas um fato é indiscutível. Se tivesse recebido os dados semanalmente, como devia, pode ser que as medidas corretivas tomadas na hora certa já teriam ajudado, e muito, para diminuir a sangria no capital do giro.

Acompanhar a evolução e involução do capital de giro é uma necessidade premente, e principalmente agora, com o credito escasso ou inexistente. Como verifiquei naquela Faculdade de Ciências Contábeis, os profissionais não sabem como enfrentar este problema. Não são somente os contabilistas profissionais. Os acontecimentos recentes envolvendo empresas tradicionais de nomes altissonantes, endividadas com dezenas de milhões em bancos, que deveriam ter analistas de primeira classe e, no entanto, soltavam dinheiro sem nenhuma preocupação, emprestando dinheiro para repôr capital de giro perdido por gestão ineficiente.

Vale a pena repetir sempre: a indústria de calçados é uma indústria pobre, de baixa lucratividade. Qualquer descuido ameaça a sobrevivência. Exemplos não faltam. E, hoje, com a informática capaz de nos fornecer qualquer dado na velocidade eletrônica não há mais desculpas. A falta de controles não pode mais ser tolerada.

O exemplo do meu amigo e cliente, que perdeu em dois meses a metade da gordura ganha no ano passado, sem o sentir ou dar pela coisa, é um alerta para todos, que de uma hora para outra podem deslizar inexplicavelmente para uma situação difícil, sem saber o que está acontecendo..

Gerir empresas exige profissionalismo. Não dá mais para empurrar com a barriga. O terceiro milênio exige trabalho sistemático e estruturado com métodos.

Zdenek Pracuch