O FUTURO DOS JOVENS
Uma das recompensas mais agradáveis desta atividade de colunista é, sem dúvida alguma, o contato com pessoas de cuja existência a gente nunca suspeitaria. E dentro deste universo destacam se com grande assiduidade os jovens, estudantes, já formados ou não que procuram orientação para o seu futuro profissional, pedem opiniões com respeito à escolha da carreira ou submetem à minha apreciação os esboços de trabalhos solicitados pelas faculdades ou escolas por eles freqüentadas.
Que o sistema educacional brasileiro é um dos piores do mundo, para a confirmação disso não era necessário o escândalo do ENEM. O comentário sobre as últimas colocações dos alunos brasileiros em competições internacionais corre solto em todas as revistas e jornais sérios, formadores de opinião. Até nesta coluna já tive oportunidade de lamentar o abandono das escolas técnicas para a industria coureiro-calçadista, onde numa abertura, proposta, de 212 novas escolas técnicas, nenhuma foi dedicada ao nosso setor.
Neste ponto já desistimos de reivindicar, porque parece que o próprio governo já parou de se preocupar com o setor ou para ele não vê futuro em que valesse a pena investir. Que diferença, em comparação com a Índia, que investe 300 milhões de dólares num programa de três anos para melhorar a qualificação dos empregados justamente neste setor.
A correspondência ou as indagações que recebo dos jovens, são dos estudantes das faculdades de diversas instituições de várias cidades. E pela formulação de perguntas ou pela apresentação dos trabalhos, vejo como é frágil o preparo destes jovens para a vida prática que os espera na vida empresarial e como, talvez, vão decepcionar os futuros empregadores, que esperam mais dos portadores de diplomas do ensino superior.
Como disse acertadamente Vladimir Piza, editor do Estadão, na coluna dele no caderno Cultura: “E essa juventude continua chegando ao mercado de trabalho sem as qualificações necessárias para uma época em que a competição econômica com outros paises envolve cada vez mais conhecimento.”
Os Tigres Asiáticos não queimaram as etapas de uma hora para outra. Na Coréia do Sul foi um esforço dirigido para educação de mais de trinta anos. O mesmo se deu em Taiwan, na Malásia e atualmente acontece na China e na Índia. Enquanto entre nós, ainda prevalece muito mais a burocracia, os currículos elaborados por burocratas de Brasília afastados anos luz da vida prática comercial e industrial.
Triste sina dos jovens cheios de dinamismo, de vontade de realizar, de agir, cheios de ideais, quando ficam confrontados com a realidade da vida prática. Por ironia, os jovens que trabalham durante o dia e estudam a noite, embora o estudo deles esteja mais precário do que dos estudantes que podem estudar no horário diurno e estudar as matérias a noite em casa, ficam melhor preparados para a vida prática, mais ainda, quando trabalham nas áreas para as quais se preparam estudando.
Infelizmente, é necessário ser realista. Tudo isso o que escrevi em forma de crítica acima, não tem solução a curto prazo e, desconfio, que nem a longo prazo. Num país onde a ação do governo é pautada pela demagogia e pelas políticas imediatistas e populistas, num país onde há décadas se discute reforma tributária, trabalhista, agrária, reforma do código penal, onde falta infra-estrutura ferroviária, rodoviária, portuária, aeroportuária, onde há falhas gritantes na segurança, na saúde e principalmente na área de educação – o que podemos esperar? Mais discursos, mais ufanismo e mais promessas? E como disse Vladimir Piza: “ ... essa juventude continua chegando a esse mercado sem as qualificações necessárias ... ” para competir com jovens coreanos, indianos, chineses e outros orientais – em condições desvantajosas.
Mas nem tudo está perdido! Vamos ter a Copa do Mundo e pasmem – até Olimpíada!!! Ou seja, além do Carnaval vamos ter mais festanças. Os jovens que estudaram línguas, até que podem arranjar um trabalho temporário de interpretes ou guias turísticos. Mas e os outros que só querem trabalhar em atividades produtivas? Será que alguém pode oferecer uma sugestão prática?
Zdenek Pracuch