JOVENS FRUSTRADOS
Fico impressionado com a quantidade de currículos que recebo com o pedido de ajudar a encaminhá-los aos possíveis interessados, porque as pessoas se sentem frustradas com o ambiente onde trabalham ou com o clima reinante na empresa. Até aí nada de novo. A insatisfação do ser humano é de certo modo até a propulsora de progresso.
Mas quando parte de pessoas visivelmente bem preparadas e bem sucedidas no trabalho que executam, quando se trata de empresas, a primeira vista, bem estruturadas e bem conceituadas, há alguma coisa estranha no ar. Por que, então, existe esse desejo de mudar, de procurar outra colocação?
Está na moda preocupar se com liderança, com relacionamento com subordinados. Nada contra, mas existem outros aspectos que merecem uma análise mais profunda. Nas palavras do professor canadense Henry Mintzberg, a própria denominação do setor que deve tratar de relacionamento humano dentro da empresa, já peca pela denominação: “Recursos humanos”. Já com esta denominação, os seres humanos, a essência de cada empreendimento, são colocados em nível igual aos Recursos Materiais, Recursos Ener-gêticos, Recursos Financeiros e todos os demais recursos que possam ser obtidos no mercado.
Será que não está algo errado na consideração e no tratamento que damos aos colaboradores e subordinados que labutam junto com a gente? Será que não conseguimos transmitir a estas pessoas a importância, que o nosso trabalho, a nossa empresa, o atendimento do mercado tem para toda a sociedade? Que o nosso trabalho não se esgota na perseguição de resultados ou de lucros, mas que contém algo de intangível, representado pela satisfação que proporciona uma tarefa concluída com sucesso? Uma tarefa que representa algum acréscimo à qualidade da vida, ao progresso social ou individual e que deixa o mundo um pouquinho melhor, um lugar mais agradável e mais fácil de se viver?
Há algo a ser ponderado, quando um jovem nos diz: vejo muitas coisas erradas, apreendi e sei, que poderiam ser feitas de maneira melhor, mais eficaz, mais barata – mas ninguém me ouve, ninguém me apóia, pelo contrário zombam de mim! O senhor conhece alguma empresa onde minhas idéias (ou meu esforço) poderiam ser melhor aproveitadas?
Existe choque natural, entre a vida acadêmica e vida prática, o dia-a-dia nas empresas. A instituição dos estágios como parte do currículo ameniza este choque, porque o jovem já descobre que a realidade é bastante diferente daquilo o que é ensinado a ele. Mas a parte intangível do ensino e parte intangível da vida prática, que se refere justamente às idéias, a sua avaliação e aceitação ou rejeição, é negligenciada e os nossos jovens apreendem esta parte as custas de desilusões e de frustrações.
Acrescente-se a esta situação o medo natural dos detentores de posições cômodas, conquistadas durante anos de trabalho que, de repente, se sentem ameaçados pela entrada de jovens, muitas vezes bem melhor instruídos, que não tem medo de idéias novas, pelo contrário, as propugnam e temos um quadro bastante desanimador do ambiente em que jovens promissores iniciam ou querem seguir a sua carreira profissional.
Não posso falar de outros ramos industriais, mas na indústria de calçados a transição trazida pelo terceiro milênio, o deslocamento do centro da gravidade desta indústria, do Ocidente para o Oriente, mostrou que a obsolescência das idéias e dos métodos do século passado, tanto na parte de estruturação, de produção e de comercialização, se tornou uma questão de sobrevivência pura.
Em outras palavras: no lugar de fazer pouco caso do dinamismo natural dos jovens, da ansiedade de trabalhar com métodos mais modernos, eficazes e rápidos, a indústria deveria incentivar esta curiosidade e vontade de adaptação aos novos tempos, aos novos desafios e principalmente, ao embate que já estamos vivendo e que irá agravar-se no decorrer de pouco tempo com os concorrentes melhor preparados e livres de preconceitos antigos.
Tenho pena dos jovens, que querem progredir, que trazem novas idéias e querem aplicar novos métodos e sistemas, condizentes com terceiro milênio e sofrem de incompreensão baseada na acomodação e obsolescência.
Zdenek Pracuch