FONTE DE PREJUÍZOS INVISÍVEIS
É de pasmar, que a esta altura de evolução da indústria calçadista e no meio de grandes preocupações com a lucratividade, competitividade e o combate aos desperdícios, ainda pode existir uma área onde o dinheiro está, virtualmente picado e levado para fora da fábrica em latões de lixo.
Trata se de seção de corte. Seja feito manualmente, seja feito por meio de máquinas de corte, seja o material couro legítimo ou materiais sintéticos, o desperdício continua e é aceito como uma fatalidade inerente à produção de calçados.
Recentemente, em Santa Catarina, com uma simples observação aos cortadores, de que a partir de agora estaremos controlando o rendimento de cada um o aproveitamento subiu em um par por metro quadrado de couro! Imaginem o descalabro que existia, por puro desconhecimento de técnicas de cálculo de consumo e de controle. O dono da empresa fez um cálculo rápido e me disse que esta diferença representará num ano 934 mil reais, com a produção atual de 3.000 pares de botas de couro por dia. Economia esta sem ter sido implantado ainda nenhum controle!
Há vários pontos que não são observados pelos empresários que, a despeito do custo elevado de materiais, em comparação com custo de mão-de-obra, ainda procuram uma alta produtividade per capita, sem se importar com a quantidade de material que está sendo desperdiçado. E, no entanto, é bastante simples corrigir este estado de coisas
1 -
A criação de modelos deve ser observada também sob o ponto de vista de economia. Os nossos modelistas nunca foram cobrados quanto à economia dos materiais. Ás vezes é suficiente mudar uma linha em dois ou três milímetros e podemos ter aproveitamento até de 40 % de material a mais. Materiais sobrepostos sem necessidade, grande margem para montagem e assim por diante, são problemas de fácil solução.
2 -
Programação de produção tem um papel importante na economia. O cortador deve ter possibilidade de trabalhar com dois ou três tamanhos do modelo ao mesmo tempo, para aproveitar melhor a área disponível.
3 -
O cálculo de consumo é outra parte delicada. Por mais que seja olhado como um método ultrapassado o “velho” paralelogramo ainda é o método mais preciso que existe. Demanda mais tempo? Sim. Mas o que valem duas horas de um calculista, contra a economia proporcionada na confecção, muitas vezes, de dezenas de milhares de pares? O melhor sistema computadorizado está calculando em média 4,5 % a mais do que o necessário e comprovado pelo paralelogramo.
4 -
Equipamento do corte deve ser mantido em perfeitas condições. Facas, ou como alguns costumam chamar, navalhas devem ser mantidas com fios afiados, vazadores em boas condições, cepos devem ser aplainados regularmente, ou no caso dos cepos articulados estes devem trocar de posição diariamente etc..
5 - Uso de máquinas de corte a laser ou jato d’água deve ser analisado cuidadosamente. As máquinas foram desenvolvidas originalmente na Itália, nos tempos em que um cortador ganhava US$ 12,50 por hora de trabalho. É óbvio que o custo de couro mal cortado ou desperdiçado pesava muito menos e numa comparação com relação a produção, as máquinas ganham disparado. Mas no caso do Brasil a situação é bem diferente.
6 -
O treinamento dos cortadores, principalmente, os dos couros é um dos fatores mais importantes para a economia e bom aproveitamento do material. Um bom cortador deve possuir o que nos chamamos de percepção espacial, para visualizar a próxima peça a ser cortada antes de cortar anterior. Algumas pessoas nunca apreenderão este requisito essencial para ser um bom cortador.
7 -
Inspeção deve ser rigorosa em dois pontos. A primeira, na recepção do material a ser cortado e a segunda, na inspeção de qualidade das peças cortadas, para identificar os defeitos cobertos ou escondidos durante o processamento da curtição. É óbvio que não há necessidade de inspecionar todas as peças, mas somente as mais importantes ou visíveis.
8 -
Ambiente de trabalho deve ser bem iluminado, e quando artificial a iluminação deve simular a luz do dia. Algumas cores dificultam a percepção de defeitos.
9 -
Motivação dos cortadores para economia e combate aos desperdícios deve ser intensa. Através de controles rigorosos ou por meio de incentivos pelas economias alcançadas. Mas os incentivos devem ser bem analisados, para que o cortador na ânsia de proporcionar economia e lucrar com isso, não cortar as peças de lugares impróprios ou até com pequenas faltas. Cortador que “zerou” o consumo cumpriu com seu dever, desde que este consumo tenha sido bem calculado e considerado o aumento exponencial entre tamanhos.
Como podemos ver pelo exposto acima, há muita coisa que os empresários não praticam ou até ignoram, prejudicando assim a própria competitividade a qual será posta à sua prova máxima no ano que se aproxima.
Um ano, quando os cálculos deverão ser feitos com um lápis bem apontado, como se costumava dizer na Alemanha, quando RKW (comitê para economia do Terceiro Reich) implantou uma planilha de custos obrigatória para todas as empresas.
O Brasil, oxalá, nunca chegará a tanto, mas o empresário que não vigiar ou praticar custos bem realistas e controlados, devagarzinho estará saindo do mercado.
Zdenek Pracuch
27/12/10