MUITAS FÁBRICAS VÃO FECHAR ?
Recentemente fui honrado pelo jornal Comercio da Franca com uma entrevista de uma página, sobre a minha vida profissional. Fiquei bastante sensibilizado por esta honraria, embora a considere um pouco exagerada. Mas, aconteceu. Tive a oportunidade de externar várias opiniões e pontos de vista, baseado na experiência de setenta anos de uma vida bastante intensa dentro da indústria de calçados, mas baseada, principalmente, na observação e na análise atualizada daquilo o que acontece na economia global e nacional e como estes acontecimentos possam refletir na atuação da indústria de calçados brasileira. (Integra da entrevista, leia aqui).
Já fui honrado muitas vezes com título de “catastrofista e pessimista”, mas, infelizmente e lamento profundamente, os acontecimentos sempre me deram razão. Não me serve de orgulho nem de consolo, quando ouço depois de dois ou três anos: Como Você sabia? Não sabia nada demais, mas tendo acesso às mesmas informações, como a grande maioria têm, encontrava tempo de analisar e projetar para os acontecimentos futuros a situação atual. Bem, tenho uma coisa a meu favor, que é o acesso às informações de fora do País, principalmente devido a rede de amizades que criei durante a minha atuação fora do Brasil.
Muitas fábricas vão fechar? Sim, vão fechar aquelas que não se adaptaram às realidades do terceiro milênio e continuam com os mesmos métodos de produção e de comercialização do século passado. É impressionante o número de veículos tipo SUV que circula pelas nossas ruas. Em outras palavras, quando se trata de se atualizar em conforto e demonstração de mente moderna, estamos na fila da frente. Quando se trata de atualizar os métodos de produção e de comercialização - para que se incomodar, por que sair da zona do conforto? É tão cômodo, tudo anda sozinho! O problema é que anda e geralmente desanda.
Junto com meu catastrofismo, costumo também pregar as soluções. E estas soluções estão baseadas na experiência daqueles que já passaram por situações semelhantes e, em boa parte, foram afetados pelos calçadistas brasileiros, do mesmo modo como hoje estamos sendo afetados pelos orientais. Sei o que estou afirmando, porque nos anos setenta fui aprender com mr. Saul Katz de saudosa memória, na fábrica dele em Marlboro, Massachussets como os americanos querem os calçados que iriam comprar. E até hoje não consegui me livrar de um sentimento de culpa, para com os operários americanos que me receberam de braços abertos e eu sabia que a minha estada por lá, iria contribuir para o fechamento daquela indústria como, de fato, aconteceu.
Quais são as soluções que tenho a propor para conservar a nossa indústria de calçados, em menor escala, obviamente, mas preparada para enfrentar qualquer crise com base tão somente no mercado interno? – São soluções que derrubam os velhos hábitos, costumes e tabus, mas os sobreviventes na Itália, na Espanha, na Alemanha, no Reino Unido e até nos Estados Unidos, provam, que há uma boa possibilidade de sobreviver e prosperar a despeito de tsunamis e semelhantes.
Até hoje a mente dos nossos empresários ou donos de empresas (esta distinção tem que ser feita), tinham as suas mentes e ações orientadas pelas imposições do processo produtivo, ou seja, focalizados na produção. Isso funcionava quando produtor fazia quase um favor em vender. A comercialização do terceiro milênio transformou o verbo vender em verbo servir. O mercado virou o mercado do comprador.
Vender hoje através dos representantes comerciais, que visitam o cliente a cada dois ou três meses, tornou se tão antiquado quanto lampião a querosene. Outro dia analisando o departamento comercial duma fábrica que produz 1.200 pares por dia e tem dificuldade com vendas a despeito de um produto original, bem feito e por um preço convidativo, solicitei análise de atuação de cada representante.
Resultado foi desanimador. O representante para o Estado de São Paulo vende em 28 (VINTE E OITO!!) cidades do Estado de São Paulo! Ouvi a alegação de que se trata de um ótimo representante, que está com a fábrica desde que esta começou! - Uma produção de 1.200 partes, do artigo em questão deveria ser vendida tão somente na Capital e não sobraria um par para o resto do Brasil! – O que adianta gastar uma fortuna, tumultuar a produção com a criação de coleções de 80 – 100 pares de modelos novos (nem tão novos) para Francal ou Couromoda, se os representantes vão carregar no máximo cinco modelos porque já decidiram quais irão oferecer aos compradores (Eu sei o que o pessoal quer e vai comprar!).
Não seria muito mais prático ter vendedor próprio visitando clientes no mínimo a cada quinze dias, com propósito de servir (posso ajudar no estoque? posso dar uma palestra para os balconistas? tem algum problema de qualidade ou reclamação?) e, principalmente, vender dentro da quota aquilo o que interessar à fábrica produzir e vender?
A conseqüência natural deste proceder será o lançamento de um modelo novo a cada quinze dias, o que por sua vez proporciona o tempo de desenvolver um modelo perfeito sob todos os pontos de vista, tanto econômico, como processual e dentro da moda atualizada quinzenalmente.
O campo de ação corretiva dentro das fábricas é ainda maior. Os desperdícios de toda ordem campeiam, mas ninguém os vê, de tão acostumados que todos estão com o status quo. É óbvio que, alguém que chega de fora, com vista desimpedida, identifica imediatamente os pontos de estrangulamento e de desperdícios. Porque hoje temos em Franca empresas que necessitam até vinte dias para terminar o produto, quando já temos no Brasil, especificamente em Nova Serrana, fábricas que produzem o calçado em questão de poucas horas?
Vão fechar muitas fábricas, sim. Isso é puro darwinismo. Só os mais capazes e bem preparados vão sobreviver. Tomara que estes comecem reagir, com toda força e determinação desde já. Porque nunca é demais repetir a inscrição de uma pedra tumular na Grã Bretanha: “Eu lhes dizia que estava doente!”
Zdenek Pracuch
25/06/12