DOIS EXEMPLOS A SEGUIR.

Aqueles que lêem os meus artigos, sabem como estou combatendo a acomodação e o medo de mudar que reina no meio-ambiente da indústria de calçados. Na situação global, que a indústria de calçados está atravessando, a acomodação aliada a falta de flexibilidade e de originalidade são iguais a uma sentença de morte.

Por isso, fiquei feliz com duas grandes surpresas que presenciei nos últimos dias. Vou contar os milagres, e vou dar uma dica parcial dos nomes dos santos, que fizeram estes milagres, embora, reconheço, que de santidade os dois não tem muito.

O primeiro caso se deu em Nova Serrana. Uma grande indústria decidiu abrir uma divisão de pesponto numa cidade mais afastada de Nova Serrana. E o diretor desta indústria incumbiu o irmão dele, Arézio, também diretor, de ficar no comando desta operação. – Ele começou do zero, selecionando pessoas, treinando-as porque não possuíam nenhuma prática, nunca tinham trabalhado numa indústria e, aos poucos, foi introduzindo a produção regular.

Na minha visita periódica que faço naquela indústria, tenho por hábito, fazer a avaliação da qualidade. Rigorosa. Quando comentei com um encarregado, que a qualidade do pesponto melhorou, fui informado, que este pesponto foi feito na nova unidade. Não quis acreditar. – Por isso, quando o diretor me pediu para inspecionar a nova unidade, parti com grande curiosidade. Valeu. Poderia servir de modelo para a maioria das indústrias. Ambiente limpo, organizado, as pessoas trabalhando com a máxima concentração, índice de ociosidade zero e a motivação das pessoas quase era possível sentir no ar.

Dei os parabéns efusivos ao senhor Arézio, porque realmente conseguiu uma façanha memorável, em dois meses de trabalho, criou uma unidade produtiva com nível de qualidade exemplar. – Isso deveria servir de lição para todos aqueles ditos empresários, que esperam que alguém irá treinar a sua mão-de-obra por eles e para eles. – A queixa deles, de que mão-de-obra existe sim, mas sem nenhum treinamento e sem experiência, não tem a mínima procedência. Mão-de-obra existe, mas é necessário seleciona-la e treina-la. Só isso.

O segundo exemplo vem de Franca. Como já disse acima, quem me acompanha sabe que há mais de vinte anos levo uma cruzada contra a colagem no pesponto. Não existe um argumento em favor da cola, mas existem muitos contra a colagem. No mundo a cola entra para o pesponto em casos extremos e muito raros. Em Franca e nos lugares onde os francanos disseminaram a sua cultura calçadista, se não colar, o pesponto pára.

Numa importante indústria de Franca, onde presto periodicamente a minha assistência, discutimos este problema e o dono da indústria ordenou, que fosse feita uma experiência seguida de implantação do sistema.

O consultor do pesponto, um dos mais antigos chefes de pespontos de Franca, senhor Diogo, foi encarregado de realizar esta façanha. Com a colaboração dos modelistas, meio descrentes e com a oposição declarada da costureira da modelagem, que não aceitava a idéia de poder costurar sem antes colar, o senhor Diogo com paciência e persistência venceu a parada.

Aos pouquinhos, de operação em operação começou a tirar a colagem e hoje tem modelos em produção, onde a colagem se restringe á uma ou duas operações, situação esta que parecia impossível. E fez mais: não demitiu ninguém mas transformou as antigas coladeiras em pespontadeiras e pespontadores. É obvio que não são profissionais polivalentes e que executam só umas poucas operações, dado o curto tempo na atividade, mas estas poucas operações que aprenderam, aprenderam e executam com perfeição.

O que o senhor Arézio fez na cidade onde implantou a nova unidade, o senhor Diogo fez em Franca, com sucesso absolutamente igual. O que prova, que boas idéias não se limitam pela geografia, mas pela boa vontade e a capacidade de implantar.

No momento que este espírito predominar nas empresas, o futuro da indústria de calçados pode ser mais promissor, do que a situação de hoje nos indica.

Zdenek Pracuch