EXCESSO DE INFORMAÇÕES

Estamos sufocados pelo excesso de informações. A velocidade de comunicação e de difusão de informações supera tudo o que poderia ter sido imaginado há poucos anos atrás. Um menino pequeno na China cai numa tubulação e a salvação dele está nas telas dos televisores do mundo no horário nobre. Interessa? Contribui para alguma coisa nas nossas vidas? Não, mas nos roubou preciosa atenção de alguns minutos de nossas vidas que poderiam ter sido dedicadas a assuntos mais edificantes.

No Estadão de domingo de 12.2.2012 há um editorial assinado pelo ex-ministro da Fazenda  economista Pedro S. Malan. O parágrafo inicial do artigo merece ser lido e pensado. Diz o Malan:”A grande maioria da população, em qualquer país do mundo, está de tal forma assoberbada pelos afazeres e pelas responsabilidades do dia a dia de sua vida privada que não tem tempo para o cultivo da memória do passado, não tem muito interesse em problemas coletivos de médio/longo prazo à frente, tampouco tem tempo e paciência para detalhes de discussões técnicas ou excesso de informações.

Quando ele diz a grande maioria da população, podemos mudar para completar – a grande maioria dos empresários na indústria de calçados. Existe uma perplexidade diante das mudanças que estamos vivendo e presenciando e a grande maioria das pessoas e empresários está confusa pelo bombardeio constante do noticiário, sem ter um Norte para se orientar. Sinto isso no meu contato diário com os industriais. Quase todos os diálogos começam com: ... o que Você acha da situação? ... como vai ser este ano? ... você vê algumas mudanças que deveria adotar? – Ou seja, embora todas as informações para se orientar estejam disponíveis, quem é que tem tempo de sentar, refletir e analisar, observar as mudanças e tirar as suas conclusões?

Estamos de fato no patamar de grandes modificações tanto na maneira de viver, como na maneira de pensar. Dizem demógrafos que em 2015 a metade de população mundial terá menos de 20 anos! O que isso representará no comportamento dos mercados, do atendimento dos anseios e do modo de viver dessa massa de jovens não será fácil de se prever. Mas é necessário começar a pensar em termos da população “web” para a qual um computador veio junto com a mamadeira.

Não consigo imaginar os marketeiros, chefes de vendas, publicitários, estilistas, criadores de moda e de opinião com idade superior a 30 anos que possam ser bem sucedidos no atendimento desta massa populacional. Os dois lados vão falar, vão se comunicar, numa linguagem diferente. Pode dar certo?

Vejo em algumas indústrias que atendo um grande progresso no processo industrial mais enxuto, mais fluído, mais racional, alguma coisa impensável há poucos anos atrás. Se alguém propusesse produzir calçado em questão de horas no lugar de dias, seria chamado no mínimo de maluco, na melhor das hipóteses de visionário. E hoje já temos várias indústrias onde estamos conseguindo isso.

Infelizmente, na área de comercialização estamos ainda vivendo no século passado e poucos empresários tiveram coragem de adotar sistemas mais agressivos e dinâmicos de vendas. Acontece que o tempo está passando e quem ficar para trás, dificilmente, mui dificilmente conseguirá reconquistar o terreno perdido para concorrentes mais dinâmicos e corajosos de adotar novas posturas e técnicas de venda.

Além da acomodação e de um alto grau de preguiça mental, o empresário brasileiro ainda é vítima das circunstâncias em que trabalha. Esta situação foi substanciada com grande realismo pelo Roberto Civita, presidente do conselho de administração do Grupo Abril num recente pronunciamento.

O que apontou? Diz Civita: Nosso sistema tributário é o mais voraz do mundo. O brasileiro paga 85 impostos, taxas e contribuições, sem que isso se converta em melhora na qualidade da vida. Nova Zelândia e Austrália, por exemplo, paga apenas três.

A cada seis meses são emitidas no Brasil 4.000 novas normas tributárias. Um funcionario teria que trabalhar oito meses para vencer isso sozinho numa empresa. Na Suíça precisaria apenas um dia.

Uma licença ambiental no Brasil leva até 6 anos para ser concedida e exige aprovação de até 20 órgãos públicos. Na Escandinávia, onde a preocupação com meio ambiente faz parte da vida, bastam cinco instâncias.

Em média obras de infra-estrutura levam no Brasil oito anos para serem concluídas. Na China, a ferrovia Pequim – Xangai a mais longa do mundo para trens de alta velocidade foi concluída em dois anos e meio.

Os aeroportos brasileiros contam com um total de 175 fingers para embarque/desembarque de passageiros. Só o aeroporto de Atlanta, nos Estados Unidos, tem mais do que isso. E já há 2.300 fingers de embarque/desembarque nos aeroportos da China.

No Brasil apenas 38 % da população entre 25 e 34 anos de idade tem o ensino médio completo. No Chile, a taxa é de 64 %. Na Coreia é de 97 %.

E Roberto Civita completa a sua exposição: Não podemos deixar a perspectiva de um ano de recordes (atenção – fala do ano 2010!!) nos cegue com relação ao longo prazo. Precisamos lutar para que o pais não tenha mais um ano de glorias, mas décadas de real prosperidade.

Nada há de estranho, se um empresário se sente perdido sem saber o rumo que deve tomar. Além das condições altamente adversas, como Roberto Civita apontou acima, num ambiente que de longe não favorece o empreendedorismo, temos ainda a pressão do mercado global e mudanças tanto de métodos como tecnológicas para dificultar a tomada de decisões, para quem não tem nem tempo, calma necessária e nem as ferramentas para analisar o que acontece em volta.

Ser empresário na indústria de calçados de hoje é sinônimo de ser herói.

Zdenek Pracuch
05/03/12